Morto

Fabio S. Erber, Conto de Fabio Erber

Quase morreu. Estivera no banho – um longo chuveiro. No banho, dizia sempre, tinha suas melhores idéias Era um lugar protegido. Na verdade, estava furiosa. Também se sentia culpada por estar furiosa. Enfim, era uma mulher liberada, madura e independente e sabia que essas coisas acontecem com todo mundo.

          Com Marcelo não. Durante a dúzia de anos de casamento fora um relógio, sem nunca atrasar. Um relógio suíço, na infalibilidade e no afeto. Repercorreu a guerra cruenta que levavam e constatou que perdera a última batalha. Marcelo tinha fazendas e o filho fora estudar em Viçosa. Mas a última batalha não era a última.

          Passara muito tempo olhando-se no espelho, buscando o que Fuad vira. Não estava mal para quase quarenta anos. Os quadris podiam ser mais finos – devia perder três quilos – mas tudo somado… Era também uma grande profissional.

          Olhando os olhos achou o que viu em Fuad. A tristeza do olhar. Não era bonito, mas não fora feio. Envelheceu mal, o atleta envelopado em gordura. Mas ainda atraente. Um turcão. Sempre gostou de homens grandes.

          Mas era o olhar. A melancolia que subia quando ele baixava a guarda. Ao ver os resultados dos pesquisadores jovens. Foi um cientista de brilho promissor. Largou a universidade pela firma e a administração apagou o brilho. Mas não o sentimento – era capaz de entender um bom trabalho e de saber que nunca mais faria algo semelhante. E não era um executivo brilhante. Hesitava e liderava mal.

          Talvez por isso gostasse dele. Pela sua fraqueza. Marcelo também era um triste. Menos na cama.

          Também porque gostava da admiração que via nos seus olhos. Especialmente quando achava que ela não percebia.

          Enquanto enxugava os cabelos recapitulou a tarde. O Congresso foi, como esperava, um tédio. E estava chovendo, o que, por alguma razão, a enterneceu. E Fuad ali, depois de apresentar os trabalhos da firma, que apenas pajeava, com aquele olhar nu. Haviam descido para tomar um uísque no bar do hotel e ele, de repente, pegou sua mão. Sabia que era casado e, antes que ele dissesse algo irreparável, concordou.

          Para, ali no motel, tudo acabar assim. Em nada. Ele suando, murmurando desculpas e ela, no fundo, furiosa.

          Aí, quase morreu.

          Saindo, enrolada na toalha, viu-o. Deitado na cama. Nu. Morto.

          Os olhos revirados, a boca aberta.

          Em nenhum momento duvidou da morte acabada. Nem tentou respiração artificial.

          Ficou ali, olhando. A toalha caiu e nem se deu conta. Só via a morte, refletida em todos os espelhos.

          Só depois notou a ereção, a notável ereção. Refletida por todos os lados.

          A ironia deu-lhe um tapa. Se tivesse conseguido antes, talvez não tivesse morrido. Voltou correndo para o banheiro e, entre soluços, vomitou convulsivamente a alma.

          No quarto, sem olhar, foi direto para a bolsa e acendeu um cigarro. Viu-se no espelho e levou um susto. Não podia ficar assim.

          Devia, em algum lugar, ter o número da casa. Surprise, minha senhora! Venha, por favor, recolher o cadáver de seu marido no Motel Caliente. Podia, então, fugir. O carro era dele, mas, mesmo com chuva, acabaria por achar um táxi.

          Recolocou o fone no gancho. Sentou-se na cama. Olhando para o rosto de Fuad, evitando mais em baixo.

          Não podia fazer isso com ele. A mulher era-lhe indiferente. Fuad nunca se referira a ela com uma palavra de ternura ou amizade – apenas para comentar sua insatisfação com o padrão de vida que levavam. E ele não devia ganhar mal! A firma esfolava, mas pagava bem a perda de juventude. Vira-a apenas uma vez, em uma festa da empresa. Uma perua, carregada de jóias e pintura.

          Mas imaginou os comentários. Para sempre Fuad seria lembrado como o que morreu no motel. Morreu trepando. De pau duro. Mal saberiam.

          Comendo quem? Aí bateu o pânico. Não podia fugir. Mesmo que passasse pela portaria. Teria antes que pagar, com o seu cheque, com o seu nome impresso. Mesmo que passasse e conseguisse um táxi. Com chuva? Na Niemeyer? A mulher faria um escândalo. Mesmo que não fizesse, acabariam por descrevê-la. E todos, no Departamento, sabiam que foi ao Congresso com Fuad.

          Emprego estava muito difícil. Como aquele, então…

          Por Fuad e por ela mesma.

          Vestiu-se toda. Penteou o cabelo e maquiou-se.

          Pegou o telefone e mandou chamar o gerente. Peremptória. Freguesa com problemas.

          Foi esperar na antessala, fumando.

          O gerente era de meia-idade, baixo, troncudo, careca. Muito preocupado, mas delicado.

-Temos um problema, comunicou. Seca. Como se fosse no laboratório. Para se controlar. E, abrindo a porta, fez-lhe ver.-Moça, a senhora!

 Mas o seu olhar cortou outros comentários. Coçou a calva.

-É. Temos um problema.

          Disse-lhe logo que ele era casado e que ela não era a mulher dele. O gerente deu um suspiro profundo e voltou a coçar.

          Sentaram-se no pé da cama, olhando para Fuad, com seu ponto de exclamação plantado no meio.

          Por fim, ela sugeriu:

-Não acho uma boa ideia chamar a família

O gerente concordou com entusiasmo.

Sentiu alívio e vazio, sem saber o que fazer. Que, por uma vez na vida, o outro tomasse decisões.

-Foi coração, não foi?

 Concordou e o homenzinho animou-se.

-Então podia ter acontecido aqui ou em outro lugar qualquer.

          Seguiu concordando.

-Então, moça, vai ter acontecido.

Estava definitivamente animado.

-Vamos vestir, colocar no carro e deixar em algum lugar perto da casa dele. O coração falhou no caminho de casa.

-..e…

Apontou para Fuad. Para o meio.

-Bom, minha senhora, isso é mais seu departamento que o meu.

          Sentiu o calor subindo e, ríspida, mandou-o virar-se. Aí viram-se no espelho e, sem se poderem controlar, quebraram a rir. Mesmo assim, o gerente teve a delicadeza de ir ao banheiro.

          Prendeu a respiração, como para um mergulho, mas não teve coragem. Procurou uma toalha, mas estavam no banheiro e teve vergonha do gerente. Pensou em fechar os olhos, mas ficou com medo de errar. Então, com um olho só, o mais míope, pegou-o com firmeza. Para seu alívio, amainou na hora.

          Vestiram-no todo. O gerente, percebeu, era um artista. Cuidadoso com os detalhes. Como era o laço da gravata, simples ou duplo? Era melhor deixar afrouxado, porque, na hora, isso era a primeira coisa que alguém fazia. E nos bolsos? A carteira de dinheiro ia no paletó ou na calça? E o talão de cheques?

          Temia a descida para a garagem. Sugeriu ao gerente que pedisse ajuda para carregá-lo, mas ele abanou a cabeça.

-Quanto menos gente souber, melhor. Isso é fogo no cerrado em tempo de seca.

          Para sua surpresa, jogou-o sobre os ombros e, mesmo bufando e cambaleando um pouco, foi até a garagem. Há muito tempo não via um homem tão forte.

          Enquanto ela abria a porta do carro e ajeitavam Fuad no banco do passageiro, ele explicou, com orgulho, que na juventude foi campeão de luta. Não entendeu que tipo de luta, mas não se importou.

          O gerente estendeu-lhe a mão, a palma virada para cima e olhou-a firme. Como não entendesse, foi mais claro.

-A conta, moça.

– Vou ter que pagar?

-Em primeiro lugar, a senhora e o moço aí usaram o motel. Em segundo, o que faço com os meus registros? Isso não dá para ser cortesia da casa.

          Mesmo sendo chamada de senhora, com toda discrição, sem ter seu nome indagado (o de Fuad ele vira na carteira), ia ter que se revelar. Pagou em cheque.

          Fez menção de entrar no carro e recuou. Tampou o rosto, escondendo a ausência de lágrimas.

-Não posso. Não tenho condições de dirigir com ele ao meu lado. E depois, como vão acreditar que ele passou para o banco do passageiro? Eu não tenho força para puxá-lo para o lado do motorista!

          A calva voltou a ser coçada. E o gerente decidiu ir junto. Primeiro queria ir seguindo no seu carro, mas ela fincou pé que não ia sozinha com Fuad.

          A chuva continuava e foram para a Barra. Ia no banco de trás, apertada de medo. Fantasiava uma blitz da Polícia ou que algum conhecido cruzasse no sentido contrário. O gerente resmungava contra a chuva, em contraponto com os limpadores de para-brisa.

          Fuad, felizmente, não morava na praia e acharam uma rua deserta e escura, perto de sua casa, onde estacionar o carro. Juntos, empurrando e puxando, passaram-no para o lado do motorista.

          Ele teve que segurá-la para que não corresse.

          A água corria-lhe pelos cabelos e entrava pelo corpo. Sentia os pés afundando em poças, mas não conseguia enxergar. Seguia-o.

          Até que viu um telefone e soube que não podia simplesmente deixá-lo lá, naquele carro escuro, embaixo da chuva.

          Olhou-a como louca, quando pediu um cartão. Mas ficou esperando enquanto ela chamava a Polícia e avisava que havia um homem caído num carro.

          Demoraram a achar um táxi e ele a levou até em casa. No percurso, ele elogiou-lhe a coragem. As lágrimas destamparam

          Tomou um banho quente e meteu-se na cama. Nem ligou a televisão, que sempre enchia a casa de som. Sentia-se febril, mas chorar no ombro do gerente tinha-lhe feito bem. Ao despedir-se, ele lhe dera um cartão. Yan de Almeida.

          Na manhã seguinte estava gripadíssima, rouca e com febre. Telefonou para o escritório e comunicaram o falecimento de Fuad. O coração. Um enfarte fulminante. No carro, a caminho de casa. O enterro era às cinco, no São João Batista. Colocariam o nome dela no anúncio fúnebre do Departamento.

          Passou dois dias de cama. O filho telefonou-lhe de Viçosa e desejou-lhe melhoras, mas não se ofereceu para ir ajudá-la. No terceiro dia, voltou ao trabalho.

          A morte de Fuad ainda era notícia, mas, muito mais, era a especulação de quem iria sucedê-lo na Chefia. Percebeu que era cotada. Comentou o Congresso e a participação de Fuad, sua última contribuição para a empresa.  Tentou concentrar-se no trabalho, mas a gripe ainda restava. Acabou saindo mais cedo.

          No quarto dia ficou em casa, mas no quinto e sexto voltou ao trabalho. No sétimo, dia da missa, foi nomeada Chefe.

          A missa foi concorrida. A família era grande e o Departamento compareceu em peso. Achou que não teria coragem de cumprimentar a viúva e os filhos. Mas não podia evitar, agora que tinha tomado o lugar do morto.

          Sentiu-se tonta quando saiu da fila e pensou estar enlouquecendo quando, ao fundo da igreja, viu a silhueta troncuda do gerente, Yan.

       Coçou a cabeça quando a viu aproximar-se e, tomando-a pelo braço, comentou:

-Era meu dia de folga e fiquei curioso de ver o que tinha acontecido. Vi o anúncio no jornal. Bom que deu tudo certo.

Parecia genuinamente preocupado com o estado dela. Físico e mental.

          A igreja era perto de sua casa e tinha medo de voltar e ligar a televisão. Convidou-o para tomar um café e descobriu que tinham várias coisas em comum, como uma paixão por chorinhos.

Artigos relacionados

Genética

Suava. O ônibus só parou em frente ao Benjamim Constant e teve que voltar rápido. Desviou a custo de um cego. Já tinha saído de casa atrasado, como não conseguia sair na hora? Início de dezembro e já fazia aquele calor. Ela gostava da Urca, de passear no fim da tarde. Entrou pelo portão do Teatro....

Genética

Fabio S. Erber, Conto de Fabio Erber

Suava. O ônibus só parou em frente ao Benjamim Constant e teve que voltar rápido. Desviou a custo de um cego. Já tinha saído de casa atrasado, como não conseguia sair na hora? Início de dezembro e já fazia aquele calor. Ela gostava da Urca, de passear no fim da tarde. Entrou pelo portão do Teatro. Não achava o papel nos bolsos. Ninguém no saguão, nem um cartaz para informar. As gotas de suor desciam até à calça.

No Teatro de Arena estavam colocando caixas de som. Parou para saborear o bom augúrio: tinham se conhecido lá, numa festa. Andava assim, dependendo de sinais.

A luz na Arena incomodava mas a sombra no corredor aladrilhado dava fôlego. Chegou no saguão da entrada principal. Um funcionário  indicou o andar de cima. Subiu, tinha que ser  devagar, tinha que parar de fumar. A capela estava aberta, cheia de flores. Ainda casavam. Achou o papel no bolso da camisa, grudado. Salão Pedro Calmon, como não lembrou?

Já tinha  começado. Atrás da mesa alta, emoldurada pelo espaldar da poltrona pomposa, ela parecia pequena. Mas ainda não queria  vê-la, precisava de calma. Deixou-se cair na última fila, mas era o único ali, o salão estava meio vazio e foi curvo, até encontrar gente. Ela não o viu – estava apontando uma tabela.

Achou um lugar na ponta, ao lado da janela aberta. Os ventiladores só jogavam o ar quente de um lado para o outro. Via o Teatro. Evitou as lembranças e fechou os olhos, esperando.

Detestava aqueles óculos remendados com esparadrapo mas não tinha jeito. Agora ela estava mostrando uma figura que até ele reconhecia: a dupla espiral do DNA. Tentou lembrar as explicações

Ela parecia a mesma. Fantasia, dez anos passam para todos.

Muita vontade de fumar, de tomar um uísque. Não adiantava ficar ali, esgueirou-se.

No banheiro pequeno e sujo ( a Universidade não mudava, nem os grafites) olhou a cara encovada. Dez anos passam para todos. Tinha cortado o rosto quando fazia a  barba braba de quatro dias, agora ardia. As sobrancelhas juntas, os olhos escuros, fundos, o nariz adunco, a boca de lábios finos, a gente não envelhece, se agrava.

Aplausos. A guimba fez um arco  luminoso, estrela cadente.

As perguntas eram por escrito. Devolveu  o papel à mocinha que circulava.  Duas frases. Saudações Universitárias! A genética é implacável ! Se ela não reconhecesse, podia sair e matar-se.

Pilha de papeluchos amarelos. Ela olhava a pergunta e depois repetia-a alto. Seu papel devia ser um dos últimos ou ela o tinha descartado. Pensou em ir embora.

Ela pigarreou e ficou olhando para o alto. Voltou a ler, limpou a garganta e disse que agradecia as saudações enviadas, procurando-o com o olhar. Ele ergueu um pouco a mão. Saiu para fumar.

Ela saiu cercada mas foi encontrá-lo no nicho da janela. As pessoas foram embora e ficaram os dois ali sozinhos.

Os dez anos tinham-lhe dado peso. Mas o oval do rosto continuava perfeito, olhos grandes boca e nariz pequenos. O cabelo estava preso num coque complicado, severo.

A roupa escura bem cortada  fez sentir a camisa suada a calça sem pregas o tênis puído. Tirou rápido os óculos.

Ela o beijou no rosto e murmurou quanto tempo. O que queria que fizesse? Dez anos.

Tateando emoções em silêncio. Ele perguntou se tinha tempo para um café, ela acenou que sim. Nunca fora de falar muito.

O café, numa das quinas da Arena, continuava ruim. Ela comentou que ali nada mudava, ele lembrou a quantidade de cerveja que tinham tomado quando se conheceram mas ela não deu seguimento.

Sentaram no Teatro. Estava escurecendo e bateu uma brisa. Seguia a carreira dela, Oxford, Stanford, Oxford de novo. Feliz pelo sucesso. Ela reconheceu o agrado com um pequeno sorriso. Súbito, explodiu, você podia ter escrito, telefonado, ido lá!

Estavam dez anos de volta. Aos últimos meses. Mas ele não queria brigar. Concordou, mas ela não precisava dele. A resposta foi surpresa. Quem disse? Um arrepio sacudiu-a e acrescentou, pelo menos no início.

Ele estava ali por uma suspeita mas ela atalhou perguntando por ele, pela sua vida. Complicado. Enrolou.  Falou dos empregos, agora era consultor, frila. Casamentos e separações. Sem filho, felizmente. Se ela visse os óculos com esparadrapo veria o seu sucesso. Se tivesse um filho seria um sentido na vida.

Ela disse que ia melhorar. Ele concordou. Começaram a testar as caixas. O som reverberava no seu estomago.

No saguão as pessoas desciam a escadaria, fim de aula. Convidou-a para jantar, um cheque sem fundos a mais, que diferença fazia? Impossível, tinha um jantar em sua homenagem.

Parados na porta, olhando o transito, ele achou que era a sua última oportunidade. Receber um sinal e, quem sabe, se orientar, tomar outro rumo, algum rumo na vida.

Perguntou se ela tinha casado. A cabeça sacudiu, sem olhar para ele.  Mas uma revista a mostrava com um menino, num jardim. Um menino e um cachorro. O rosto do menino estava meio encoberto pelo braço.

Ela encarou-o:

Paul e Tubby. Paul é o menino. Paixão da minha vida!

Ele disfarçou e perguntou a idade. Ela olhou-o longamente e depois disse em voz neutra oito anos, uma produção independente, não se arrependia, melhor coisa que tinha feito na vida. Grande para a idade. Não, não tinha um retrato ali, mãe desnaturada.

Ele não insistiu. O sinal falhou, não veio, a vida era um lixo mesmo. Estava vazio.

Ela olhou o relógio. Tinha que pegar um táxi para Ipanema, queria uma carona? Ele mentiu que morava perto. Beijou-a no rosto e saiu em direção à Urca.

No hotel, ela tirou o retrato de Paul da carteira. O rosto  fino, os olhos fundos, o nariz a boca, dez anos já a cara do pai, ele tinha razão, a genética e

Artigos relacionados

Duende

A Herança Se me olhar no espelho, posso vê-lo. Descontando, claro, meus quilos a mais e cabelos a menos. Um homem naturalmente corpulento, cabelos escuros, olhos pequenos, o nariz grande e adunco. A boca larga, sempre ocupada, desde criança, com balas, cigarros, chicletes, o que...

Duende

Fabio S. Erber, Conto de Fabio Erber

A Herança

Se me olhar no espelho, posso vê-lo. Descontando, claro, meus quilos a mais e cabelos a menos. Um homem naturalmente corpulento, cabelos escuros, olhos pequenos, o nariz grande e adunco. A boca larga, sempre ocupada, desde criança, com balas, cigarros, chicletes, o que fosse.

Samuel, Sammy, e eu nascemos com um dia de diferença. Eu antes, o que talvez explique alguma coisa. Os dois, filhos únicos. Nossas mães eram gêmeas, o que talvez explique a coincidência.

Seguimos paralelos a infância e a adolescência. Só agora dá para ver que já haviam diferenças. Imperceptíveis, à época.

Separamo-nos, mesmo, quando fomos estudar nos Estados Unidos. Ou melhor, eu fui para estudar; Sammy foi mandado pelo pai. Tinha-se metido em uma encrenca, vendido algo que não tinha. Eu fui para o Leste. Boston. Harvard, Escola de  Direito. Sammy foi para o Oeste. Califórnia. Foi para Woodstock e não voltou.

De vez em quando,  mandava um postal. San Francisco, Los Angeles, Paris, Katmandu, Amsterdam.  Bancoc, Miami…Nada de muito prolixo. Wish you were here, love, nada mais. No meu aniversário, porém, era certo chegar um cartão.

Seu pai desesperava-se mas mandava-lhe dinheiro. Apesar da oposição virulenta e indignada do Tio Lemle, irmão mais velho e sócio principal do negócio. Meu pai também não aprovava, mas não era sócio. Eu me espantava por não me surpreender. Era como se uma parte minha, desconhecida, já antecipasse a bifurcação. O papel de filho e sobrinho modelo, advogado trabalhador, bom pai de família, não me desagradava.

Aos poucos, a geração mais velha foi morrendo. Nossas mães, sempre solidárias, foram com uma semana de diferença. Um ano depois, meu pai, e no  seguinte, o pai de Sammy. Um enfarte, ao voltar do banco onde foi remeter dinheiro para Sammy. No meio de uma discussão com Tio Lemle. Ninguém me disse porque discutiram, mas tenho as minhas idéias. Duvido que fosse por negócios. Tio Lemle era um gênio comercial e o pai de Sammy nunca questionou a ascendência do irmão mais velho. Não tinham outras paixões, salvo Sammy.

Sammy veio ao Brasil para o enterro. Antes, só voltara quando soube da morte da mãe, ao chegar do Nepal. Bom filho, à sua maneira, foi visitá-la no cemitério. Estava genuinamente triste com a morte do pai. A recusa de Tio Lemle, nosso único parente vivo, de vê-lo, deixou-o ainda mais acabrunhado.

Com a morte do irmão, Tio Lemle fechou o negócio, vendeu tudo e recolheu-se a um casarão em Petrópolis. Não casara nem tivera filhos.

Sammy herdou uma bela fortuna. Não me contou que negócios fazia lá fora mas encarregou-me de administrá-la. Eu sabia que sua intenção era torrá-la. Não precisava me dizer.

Fora as coisas práticas, pouco falamos. Nunca fôramos de muita conversa. Não questionamos a bifurcação, reconhecendo sua irreversibilidade. Sammy voltou para o exterior e a correspondência reduziu-se a ordens de pagamento para diversas partes do mundo. Os cartões de aniversário, porém, continuavam a chegar. Aos poucos, as ordens foram convergindo para a Califórnia, como um círculo se completando.

Este ano, a fortuna de Sammy estava acabando. Na mesma semana em que o avisei dessa iminência, minha secretária recebeu um telefonema de uma mulher que não se identificou: Tio Lemle queria me ver. Levei um susto, como se um fantasma tivesse entrado porta a dentro e pedido para fazer seu planejamento fiscal. Tio Lemle tornara-se um recluso tão eficiente, sem telefone, desencorajando abertamente qualquer visita, que eu acabara por esquecer que ainda existia.

Petrópolis virou algo detestável – a cidade média de interior. A parte comercial já estava chegando perto da casa do Tio, embora duvido que ele soubesse disso, ou se importasse. A casa, um mostrengo sem estilo, construída no início do século,  estava decrépita, as paredes externas descascadas, mostrando a alvenaria. A hera cobrira o largo portão, as grades, o muro da frente e avançava, intrépida, pelo portãozinho lateral, resistindo a quem tentasse abri-lo. Do lado de dentro, o mato  liquidou todos os competidores no antigo jardim. Ninguém, no entanto, acabara com a figueira, que, escura, dominava o pedaço. No meio do mato, pensando nas marcas que deixaria em meu terno claro, algo roçou minha perna. Esforcei-me para não gritar.

Os degraus da escada que dava acesso à varanda haviam rachado. Pedaços do corrimão de madeira e ferro batido e da grade que circundava a varanda haviam sido tragados pelo mato triunfante.

Já na porta assaltou-me o cheiro. Penetrante, perverso, de sujeira e podridão.

Com minha batida, a porta abriu-se. A penumbra fazia a sala parecer maior. O cheiro era espesso. Havia muitas respirações.

Finalmente, o enxerguei. Estava sentado numa poltrona no meio da sala. Cercado de gatos. Talvez tivesse esbarrado num deles, no mato.

A voz era aguda e anasalada. Tão fraca que parecia o fantasma da voz que eu lembrava. Mandou-me puxar uma cadeira e sentar-me. Não disse palavra de boas-vindas. Muito menos de agradecimento por ter largado tudo e subido a serra num dia útil.

Tomei coragem e abri uma janela.  Precisava de luz e ar fresco para não correr. Vários gatos reclamaram em antífona.

Tio Lemle virara um duende!

Encolhera, mas de forma desigual. A cabeça. agora, era enorme. Nela, ainda restavam alguns fiapos de cabelo branco, espalhados como tufos pela pele encardida. No meio da cabeça reinava absoluto o nariz, que se curvava sobre uma boca de lábios finos e alguns dentes amarelados. No queixo uns tufos de barba, que não chegava a ser branca. Sob a pele, viam-se os vasos, que davam ao rosto uma falsa aparência de corado. Sentado numa cadeira de rodas, coberto por uma manta de cor indefinida, o corpo parecia pequeno, mas as mãos, estriadas de azul e preto, ainda eram grandes.

A sala era uma ruína. Louça quebrada, alguns móveis também. E sujeira, por toda parte. Montes. O cheiro era insuportável. Também havia pilhas de livros, espalhadas por toda a sala.

Fechei a parte de cima. Há anos que não vou lá. Tenho um acerto com uma mulher da redondeza. Faz a comida e deixa na porta uma vez por semana.

Aos poucos, a voz ia recobrando força. Há quanto tempo não falava com um ser humano ? Vivo, pelo menos ?

Já satisfez a curiosidade ? Viu como vive o seu velho tio ? Então vamos aos negócios, que não o tirei do escritório num dia útil para ficar falando bobagens!

Era a voz do Tio Lemle como a lembrava, dando instruções ao pai de Sammy ou a meu pai, mandando-me estudar para progredir na vida. Sentei-me à sua frente.

Trouxe o gravador, como mandei ? Tome notas também, porque não confio muito nessas coisas.

Fez uma pausa.

-Na verdade é simples. Estou morrendo.

Abanou a mão com força, para impedir-me de falar.

-Sei que sente. Alguma coisa.

Olhou-me fixo nos olhos.

-Não estou senil nem maluco, sobrinho. Apenas sei que a morte está muito perto.

Relaxou e mostrou-me os poucos dentes.

-Andei muito ocupado, estudando coisas que não lhe interessam. Mas agora, tenho algo a fazer que é da sua área. Meu testamento.

Olhou-me fixo novamente. Parecia reunir forças.

-Nomeio meu sobrinho Samuel meu herdeiro universal.

A voz era firme e a carga de prazer e ódio que trazia quase tirou-me da cadeira. Prosseguiu no mesmo tom.

-Meus bens são esta casa e seu conteúdo. A escritura da casa você encontra naquela gaveta. Pode examinar – está em ordem. Todos os impostos pagos, tudo em ordem para que meu sobrinho possa gozá-la.

Pensou um pouco.

-Mas o principal é o conteúdo. Que também lego a Samuel. Nele há um tesouro, que será dele, se souber achá-lo. E conservá-lo.

Pôs-se a rir. Gargalhava, com tal prazer que eu sentia calafrios, apesar do calor abafado da sala.

Fez-me repetir tudo e tocar a gravação. Recusou-se a esclarecer o que era o tal tesouro.

Trouxera um laptop e resolvemos tudo rapidamente. O tesouro ficou incluído no conteúdo da casa, sem especificação. Como dissera, era simples. Do ponto de vista legal. Antes de assinar, teve uma idéia.

-Coloque aí uma clausula adicional. No caso de falecimento de Samuel, a casa e tudo mais passam a você.

Com um risinho satisfeito, acrescentou :

-Não há risco de você encontrar o tesouro se Samuel não conseguir.

O olhar pôs-se vago e ficamos muito tempo em silêncio. Por fim, despediu-me com um gesto da mão. Pensei que deveria beijá-lo ou fazer algum gesto de carinho, mas não foi possível.

Quando estava na porta, chamou-me de volta.

-Não deixe de tocar essa gravação para Samuel, quando chegar a ocasião.

Atravessei o jardim quase correndo. Tinha a sensação de ser observado.

Uma semana depois, a mulher que lhe preparava a comida telefonou para comunicar o falecimento de Tio Lemle. Para minha surpresa, chorava muito e dizia que ele era uma ótima pessoa. Enterrei-o em Petrópolis mesmo. Estávamos só ela e eu. Era velha, gorda e tinha um ar de boa pessoa, um pouco pateta. Mandei fechar a casa e contratei um vigia.

Sammy chegou no fim do mês. Nada pareceu espantá-lo. Ouviu a gravação com o mesmo espírito com que escutara meu relato. Tio Lemle, no fundo, era um bom sujeito e gostava dele. No fim da vida, reconhecera que fora injusto e corrigira o erro deixando seu dinheiro para quem mais precisava. E precisava muito!

O cinzeiro já transbordava mas acendeu outro cigarro. Penso que interpretou mal  minha cara, porque perguntou :

-Você não se incomoda? Com a herança? Meti-me em uns negócios complicados e estou a perigo. Meus…clientes, não são do tipo que se queixa ao bispo. Ou ao advogado.

Não comentou mais e também mais não perguntei. Marcamos para ir a Petrópolis no dia seguinte, mas um mal súbito me impediu. Sugeri adiarmos para o fim de semana, mas ele estava com pressa. À noite veio ver-me. Anunciou que parara de fumar e ofereceu-me um drops.

-Estive lá. Bad vibrations, man. Dá para vender? Tipo rápido?

Vender é sempre possível, depende do preço. Rápido, mesmo barato, é difícil.

Pensei que Sammy devia estar mesmo pressionado, para ter esquecido assim o que nossos pais e o tio Lemle teriam dito.

-Então, só me resta achar o tal tesouro. Pelas minhas contas, tenho quinze dias. Vou precisar de ferramentas, roupas e comida. Me empresta algum?

Ofereci emprestar-lhe o que precisava para pagar os tais “clientes”.

-Só in extremis. Esse é um negócio em que é melhor você não se meter. E, depois, o Tio Lemle deixou-me um tesouro!

Ofereci para ajudá-lo na busca.

-Muito grato. Mas tenho a intuição de que o Tio arrumou as coisas de modo que, seguindo a minha cabeça, vou acabar achando. No offence meant, mas sinto que você vai acabar atrapalhando. Sua cabeça ficou muito diferente.

Rindo, enfiou outro drops na boca.

No dia seguinte pegou as plantas da casa no meu escritório e subiu.

Tive uma semana especialmente complicada, mas, à noite, não conseguia não pensar em Sammy  e no Tio Lemle. Talvez Sammy tivesse razão. No domingo, não resisti e subi.

Cheguei no meio do dia. Todas as janelas e portas estavam abertas. Na varanda, encontrei Sammy, sem camisa, suarento, com o rosto vincado. Levou-me para a sala. Fizera uma retícula na planta, com quadrados de várias cores. Um bom número estava riscado.

-Olha aí! Adotei um método racional. Depois de estudar a casa, dei probabilidades a cada lugar e comecei a procurar. Comecei pelo térreo, para depois ir para o andar de cima e o porão.

Deixou-se cair numa cadeira, que rangeu.

-Nada! Nada vezes nada! Nesse ritmo, posso passar anos aqui; nessa catacumba! E tempo não tenho!

Voltamos para a varanda. Estava muito tenso. Perguntei-me se dormira ou mantivera a busca durante as noites. Encheu a boca de balas. Dava para alimentar-se de balas? Falava entredentes.

-Estive pensando. O tesouro só pode ser de coisas muito duráveis, fisicamente. Duráveis em valor também. Ações, títulos, papel, estão fora. O velho já deve ter escondido há tempo, pelo estado de saúde que você descreveu. Só pode ser ouro e pedras preciosas!

Ocorreu-me uma idéia terrível :

-E se for algum conhecimento? Ele falou de pesquisas que eu não iria entender.

Ria muito. As lágrimas corriam soltas.

-Você está fora de sintonia com o velho. Dinheiro, grana, era o que lhe interessava e que preciso!

Pegou-me pelo braço:

-Vamos almoçar, brother. Estou sentindo que estou na trilha errada.

Depois do almoço despachou-me de volta para o Rio. Quando parti, estava sentado em baixo da figueira, fumando um cigarro de maconha, totalmente indiferente à reação dos vizinhos.

Dois dias depois entrou em meu escritório. Estava ainda mais magro, a barba crescida, as roupas  mais sujas. Mas os olhos brilhavam. Ofereceu-me balas. Tentava parecer frio, mas a voz tremia.

-Depois que você foi embora, fiquei lá pensando. Tinha certeza de que estava no caminho errado. Aí, tentei pensar como Tio Lemle. Imaginar como ele me via. A sensação de erro foi Então, veio o primeiro clique. Não era para seguir uma estratégia racional,  certinha. Para isso, ele teria chamado você. Eu, eu sou o porra-louca da família!

-Esperei a noite e tomei um ácido. Oh boy! Que viagem naquela casa! No início, foi meio sinistro. Todas aquelas sombras. Tive medo de estar entrando numa very bad trip. Mas, depois, fui-me acostumando. Saí andando pela casa, vendo coisas, cores, que nunca tinha visto antes. As madeiras estalando pareciam tiros. Longe, ouvia a voz de Tio Lemle me chamando, mas não conseguia localizar. Andei pelo térreo, onde tudo era marrom. Na andar de cima, era verde e azul. Aí fui para o porão. A voz era mais forte. Como quando ia lá em casa levando um presente. Vermelho. Bordô. Muito sangue. Rosa também, pouco mas tinha. Uma coisa grudou no meu rosto. Deu tanto horror, medo, que caí no chão. Devia ser uma teia de aranha. Fiquei lá sentado, cercado de sangue, quase sem respirar. Então comecei a ouvir uns barulhos. Passinhos. Depois, vi uma sombra. Enorme! Acho que encostei numa parede, me escondi atrás de uma pilastra. Era um homenzinho. Bem pequeno. Com cabeção, perninhas curtas. Barbudo.

Pulei em cima dele. Não lembro bem o que aconteceu, mas segurei-o firme.  Ficamos assim, nos encarando, e aí eu disse que queria o tesouro do Tio Lemle. Que o Tio Lemle tinha deixado para mim. Ele disse que eu podia ser o herdeiro mas que ele tinha a posse. Parecia um advogado, o desgraçado! Aí, fiquei muito irado e apertei a garganta  dele. Começou a espernear e gemer e lembrei que, se  ele morresse, eu nunca acharia o tesouro. Coloquei-o no chão e fiz um trato. Podíamos dividir o tesouro. Metade para cada um. Aí  soube que o tesouro estava com ele. Tinha uma bolsa no cinto, que arranquei. Não tenho muita lembrança do que aconteceu depois. Acho que saí correndo…Na manhã seguinte, acordei em baixo da figueira, com isso na mão!

Mostrou-me uma bolsinha de couro, franjada nas pontas.

-Não tenho noção de como foi parar lá nem onde achei! Dentro havia isso…

Na palma da mão tinha os dois diamantes mais maravilhosos que já vi. Tenho um cliente que é obcecado por diamantes e acabei aprendendo bastante. Ficamos os dois ali, bestificados, olhando para as pedras. Fechei os olhos, para quebrar o encantamento e empurrar a inveja. O tesouro do Tio Lemle era um tesouro mesmo!

Sammy deu uma gargalhada e guardou os diamantes.

-Com isso, pago as minhas dívidas e posso retomar minha vida!

-E o homenzinho, duende, ou o que fosse? perguntei. Você não ficou de dar um para ele, racharem o tesouro?

-Um duende de ácido?! Rachar um tesouro com um duende? Oh man, quem ficou doido foi você! Vou para o hotel, descansar! Amanhã nos falamos.

Ria muito e quando saiu do escritório ainda dava para ouvir sua gargalhada. Ouvi de novo a gravação do Tio Lemle, mas não espantou a minha angústia.

Na manhã seguinte, telefonaram-me do hotel. Nervosíssimos. A camareira encontrara Sammy. Morto, deitado na cama. Não havia sinais de violência; tudo indicava uma morte natural. Queriam evitar um escândalo.

Chamei o médico da família e fomos para o hotel.

Era uma suíte. Enorme. Sammy começara a gastar por conta.

Estava deitado na cama. De pijama de seda, novo. Os olhos e a boca abertos. Um ar perplexo. Deu-me aflição olhá-lo.

Havia comprado uma mala nova e roupas também. O gerente fez abrir o cofre em minha presença. Lá estavam o passaporte, cartões de crédito e algum dinheiro. Mas não havia rastro da bolsinha nem dos diamantes. Interroguei o gerente. Não havia registros de visitas, ninguém vira nada. Mas poderiam ter subido direto, se soubessem o número. Era um hotel grande – não dava para controlar tudo. Sammy dera dois telefonemas internacionais. Para San Francisco. Os dois muito curtos.

O médico chamou-me de lado. Parecia muito espantado. Tinha um dos diamantes entre os dedos.

-Estava na garganta. Descobri por acaso.

Ficamos um tempo olhando a pedra. Eu, pensando em Sammy e suas transações. Ele, não sei.

-Ele morreu sufocado.

Pensei nas balas de Sammy. Na nossa infância. Lembrei do Tio Lemle.

-Ponha aí ataque cardíaco. Não vamos complicar as coisas.

O outro diamante não foi achado. Prefiro crer que Sammy o engoliu, mas não tive coragem de pedir uma autópsia. Que descanse em paz. Ele, o Tio Lemle e os demais.

O diamante que restou, vendi para meu cliente. Há pouco tempo, ele me assegurou que outra pedra parecida não apareceu no mercado. O que não quer dizer muito. A casa, mandei demolir, cimentar o chão e virou estacionamento. Só deixei a figueira, mesmo que o manobreiro reclame.

 

 

Artigos relacionados

Desenhos

Apesar do ar-condicionado, ele estava suando muito. Podia ver as manchas se espalhando na camisa amarela. Era muito grande e fora musculoso. Agora, engordara. Ele afrouxou a gravata marrom e respirou fundo. Ela sentia um misto de desprezo e repugnância. E raiva. E, no fundo, esperando, o medo. -...

Desenhos

Fabio S. Erber, Conto de Fabio Erber

Apesar do ar-condicionado, ele estava suando muito. Podia ver as manchas se espalhando na camisa amarela. Era muito grande e fora musculoso. Agora, engordara. Ele afrouxou a gravata marrom e respirou fundo. Ela sentia um misto de desprezo e repugnância. E raiva. E, no fundo, esperando, o medo.

– Pensei que você fosse capaz de me proteger.

Pôs todas as emoções na frase, para atingi-lo. O suspiro virou um ronco. Um homem tão grande e forte e tão frágil! Os homens eram idiotas.

– Você, dessa vez, exagerou!

– Eu ?! Ramon, o idiota, toma uma overdose, e eu sou culpada?

Mas pensou que errara, mesmo, e perdera o controle. Não deveria ter dito a Ramon que trepava com Pablo. Especialmente Pablo. E especialmente quando Ramon, mais uma vez, fora impotente. Não resistira à tentação de torturá-lo um pouco, mas fora longe demais. E, agora, era irreversível. A morte era irreversível. Sentiu raiva do morto e de si.

Tecnicamente, fora um suicídio. Mas, ali, tecnicalidades não eram relevantes.

Pablo levantou-se para falar. Quase um pronunciamento oficial.

– Para o Chefe, você é a responsável pela morte do filho dele. E ele quer vingança. Vou vê-lo daqui a uma hora. Ele vai me mandar prendê-la. Você tem pouco tempo.

Pensou, “por que ele sempre o trata como “O Chefe”? É o Presidente. Pode ser um ditador, mas é o Presidente. Chefe parece coisa de máfia. Mas, talvez seja isso: são a Máfia”

Era sempre assim; quando tinha medo, dava para divagar. Pablo olhou o relógio.

Sabia que ele cumpriria a ordem do Chefe. Uma morte que não queria imaginar. Sentiu um calafrio. E tinha pouco tempo. Mas precisava confirmar uma defesa.

– O Chefe sabe …de nós dois, Pablito?

O silêncio confirmou o que pensava.

– Ele não gostaria de saber. Pode até dar-lhe idéias diferentes, sobre a morte do filho.

Ele abriu e fechou as mãos pesadas e deu um passo em sua direção.  Sentiu medo, mas manteve o sorriso.

– Há as fitas, lembra? Essas, você não pode matar. Estão fora, no exterior, como eu avisei. Meu seguro.

Era mentira – não havia fitas gravadas – mas ele não sabia. O que contava era seu medo.

Levantou-se e foi até ele. Beijou-o na face e empurrou-o delicadamente para a porta.

– Adeus, Pablito.  Me dê o tempo que puder. Por nós dois. Nosso pacto de vida.

Deteve-o na soleira e encarou-o.

– Não quero sofrer um acidente. Não quero ser seguida. Qualquer coisa, as fitas entram no ar.

Beijou-o novamente, dessa vez na boca. Queria que ele saísse com seu gosto, seu perfume. Depois de um segundo, ele respondeu. Ainda tinha poder.

– Foi bom, Pablo. Ainda vamos nos encontrar. Logo logo.

Afastou-se e ficou encarando-o até que abaixasse os olhos.

Enquanto esperava pelo ruído do motor do carro, olhava as mãos. Estavam tremendo. Aquele jogo não era o seu. A violência física enojava-a. O poder, de que tanto gostava, tinha que ser sutil. A violência também. Ramon fora divertido, no início. Pablo, excitante. Suava poder. Mas errara.

– Ele tem razão. Fui uma idiota, censurou-se alto. Deu de ombros. Talvez tivesse aprendido. E não tinha tempo.

Decidiu telefonar para o escritório. Ainda bem que acabara a arte-final que haviam encomendado. Detestava deixar coisas incompletas. Não entrou em detalhes, mas insinuou que tinha que viajar por “razoes políticas”. Era uma garantia dupla: de que não fariam perguntas e de que poderia voltar, se precisasse. Tinha certeza de que o ciúme de Pablo mandara vigiar o telefone do escritório, mas era irrelevante. Se a pegassem, não faria diferença.

Respirou fundo e tentou concentrar-se. Encarou o Chefe. O Presidente. Seu retrato estava lá. Pablo mandara emoldurar. O retrato que ganhara o concurso e abrira-lhe as portas. Na época, gostara. Do retrato e do poder. Agora, que conhecera a pessoa, percebia os defeitos dos dois. Mas, se tivesse feito como os conhecia, não teria ganho o concurso.

Por sorte, tinha pouco dinheiro no banco. Seu sentido de impermanência impedia investimentos. Não tinha sensação de futuro. Perdeu algum tempo selecionando as roupas. Poucas, que coubessem numa bagagem de mão. Fez uma pasta com seus melhores desenhos. Quando acabou, teve a sensação de que era definitivo.

No aeroporto, sentiu alguma pena de abandonar o carro. Dava-lhe a impressão de liberdade.

O primeiro voo era para o Rio de Janeiro e São Paulo. Gostava do Rio. Ida e volta. Tudo que ajudasse a Pablo a dar ao Chefe a impressão que era uma ausência temporária. O pacto de vida. Sentiu vontade de rir. Mas percebeu que estava com medo. E com raiva. Não queria sair assim, fugindo. Mas era culpa sua.

Saltou no Rio.

 

Trabalhava como frila. Odiava a exploração, mas não deixava rastros.

O medo não a abandonava. Tinha pesadelos, em que homens a agarravam e a afogavam no mar.  Evitava qualquer contato com a colônia e alternava as bancas onde comprava jornais de Assunção. Quanto ao sotaque, como tantas outras coisas de infância, permanecia indelével. Mas os brasileiros tomavam-na por argentina.

Na manhã de domingo, no jornal estava o retrato. Pablo Aguirre. Era uma foto oficial, com o peito cheio de medalhas. O helicóptero caíra pouco depois da decolagem. O enterro fora com grandes honras. Que importava se fora acidente ou sabotagem? Lembrou-se do pesadelo.

Não tinha intimidade com o mar. Era fluvial e o movimento e a força do oceano sempre a intimidaram. Mas mergulhou de cabeça e nadou para o fundo, furando as ondas. Embolou um par de vezes, perdendo o fôlego, mas seguiu, além da arrebentação. Não havia gente por perto e despiu-se. Ficou boiando, deixando-se levar pela correnteza, olhando as nuvens. Sentia as correntes de medo indo para a água, misturando-se no mar, sem afogá-la. Saiu longe de onde entrara e voltou pela praia, enfiando os artelhos na areia quente e sentindo o sol queimar-lhe as costas, como na infância.

No dia seguinte foi para Curitiba, onde os exilados se concentravam.

 

Fizera três posters, como haviam pedido. E um trabalho seu, com o recado que queria dar. Fizera os três posters expressionistas. Os dois primeiros denunciavam a opressão e a tortura – uma bota sobre o pescoço de um índio e uma mulher num pau-de-arara. O terceiro era uma bandeira rasgada. Fizera-os facilmente e estava satisfeita com a qualidade, mas a que serviam? A incomodar um pouco as pessoas. Como, se no fundo, não soubessem. Eram um grito de dor. E de fraqueza. E nada disso servia para mudar.

Seu trabalho era desenhado em história em quadrinhos. Um homem atirando com uma bazuca e um carro explodindo. Dentro do carro, no banco de trás, um homem uniformizado, sendo fragmentado. O Chefe. Retratara-o tantas vezes, que, mesmo estilizado, era reconhecível.

Arrumou-os e esperou.

Entrar nos exilados fora fácil. E arriscado. Escarnecendo da oposição, Pablo lhe falara de informantes infiltrados. Ao propor-se a fazer os posters, assinalara sua presença. Sabia que o Chefe não a esquecera. Com a morte de Pablo, caíra sua última defesa. Estava só. Como no mar.

Ficara um tempo observando as lideranças, sentindo as vibrações. Desconfiava dos mais eloquentes e desprezava os que pareciam movidos por razões vagas, como solidariedade. Finalmente, achou-o.

Chamavam-no “El Basco”. Alto, magro, consumido pelo ódio, mas frio. Tinha a testa alta e os lábios pálidos. Falava pouco, mas tinha o domínio completo de um grupelho, que o via como o Messias. Sua impaciência com o discurso teórico era mal disfarçada. Os outros tinham-lhe medo, que também tentavam dissimular.

Buscou um caminho de aproximação. Conseguiu, furando o cerco do grupelho, sentar-se a seu lado numa reunião. Ela nunca tomava a palavra em público, mas fez, em voz baixa, um par de comentários quanto ao desperdício de verbo e à necessidade de ação, que o fizeram notá-la.

Numa festa da colônia, observou-o quando uma jovem do grupo o tirou para dançar. O corpo era-lhe incomodo. Soube que, se fossem para a cama, a usaria apenas para gastar energia. Não se incomodava de ser usada, se fosse útil; mas não seria. Teria que fazer uma proposta direta, usando os seus meios.  Se fosse um informante, estava perdida.

Na reunião, todos se concentraram nos posters. Menos ele. Estava examinando o desenho atentamente, quando ela se aproximou. Os lábios finos tinham ganho alguma cor. O peixe, ensinara-lhe Pablo, precisa de tempo para gostar da isca.

– Parece uma boa ideia, comentou, sem olhar para ela.

Deu um leve puxão na isca.

– É viável. Se houver um grupo com vontade.

– Com a segurança com que anda?

O peixe estava gostando da isca, mas tinha medo. Era um peixe experiente.

– Nem sempre tem segurança.

E afastou-se, para dar-lhe tempo de gostar.

Como esperava, ele ficou depois dos outros. Com a isca cravada na goela. Fingiu não perceber. Ele pegou seu desenho, aproximou-se e ordenou.

– Fale.

– Por que vou confiar em você? Isso está cheio de informantes.

Era um jogo lento, difícil. Se o peixe a puxasse para a água, iria afogar-se.

– É verdade. E se eu fosse um, você iria morrer logo, pelo risco de que soubesse, mesmo, do que está falando.

Sentiu o estômago contrair-se. Ele sorriu.

– Mas gosto do seu cuidado.

Pensou um pouco, debatendo algo em silencio. Ela sentia a linha retesando-se, o peixe enganchado, a mão de Pablo firmando-lhe o braço.

– Vou dar-lhe uma prova. O helicóptero de Pablo Aguirre. Não foi acidente. Fomos nós, com um míssil. De um terreno baldio em Santa Maria. O helicóptero passava sempre por lá. Foi só esperar. Demos sorte, porque não sabíamos quem estaria dentro.

Não fumava, mas acendeu um cigarro do maço dele, para ganhar tempo e controlar o estômago. As mãos tremiam-lhe. Sempre suspeitara de que não fora um acidente, e havia rumores na colônia de que fora um atentado. O helicóptero era a paixão de Pablo, o símbolo de status que mais prezava. Que ironia, que a oposição, que tanto desprezava, o tivesse atingido dentro dele!

Finalmente, conseguiu controlar-se e encarando-o, disse, baixo, mas claro:

– O Chefe tem uma amante. Vai visitá-la às terças, às quatro horas. Vai disfarçado, porque tem medo da mulher. Só com um carro de segurança.

– Como é que você sabe disso?

A pergunta também viera em tom baixo, mas era decisiva. Sentiu a ameaça no ar. Mas já pensara muito na resposta. Escolhera Ramon, o filho do Chefe, como fonte da informação. Todos sabiam que era um viciado e, portanto, por definição, pouco confiável. Era outra ironia, que do fiel Pablo tivesse vindo a inconfidência amorosa. Ramon tinha pelo pai sentimentos tão turvos que dele mal falava, embora aproveitasse o seu poder. Provavelmente nem sabia da amante.

Admitiu que “tivera um caso” com Ramon e afirmou “sentir” que o Chefe fora responsável por sua morte. A morte era pública. A passionalidade da vingança estava conforme a visão que ele tinha das mulheres. Motivos ideológicos teriam pouca credibilidade. O peixe estava em terra.

Ele fez questão de levá-la em casa. Queria saber onde morava. No caminho quase não se falaram, mas, ao se despedir, ele sugeriu que não saísse da cidade por uns tempos.

Seguiu trabalhando, tampando a ansiedade com desenhos que vendiam a felicidade. Continuou frequentando as reuniões de exilados. El Basco desapareceu por uma semana e, ao voltar, não tocou no assunto. Havia noites em que não conseguia dormir, e redobrou as medidas de segurança.

 

Não foi necessário comprar os jornais da colônia – a morte do Chefe mereceu primeira página dos nacionais. Não era todos os dias que o Chefe de Estado de um país vizinho morria em um atentado, o carro explodindo. Com uma diferença de detalhe: haviam usado um míssil.

Os exilados pareciam uma colmeia que tivesse levado uma pedrada. No tumulto dos que se preparavam para voltar e disputar o poder, o registro de sua partida foi feito e logo esquecido.

 

Voltou para o Rio. El Basco estaria tão envolvido nas lutas que teria pouco tempo para lembrar-se dela. Era perigoso demais para que os outros o deixassem vivo.

Começou a tomar gosto por desenhar paisagens. O Rio era lindo.

Artigos relacionados

Mistérios de Sisifo

De que é feita a pedra seu destino? Empurra matéria ou culpas intangíveis?   Sísifo pesa o passado?   A compulsão é a maldição?   Sobe o morro repete o gesto no desespêro ou otimista acha sempre desta vez dará?

Mistérios de Sisifo

, Poesia de Fabio Erber

De que

é feita a pedra

seu destino?

Empurra matéria ou

culpas intangíveis?

 

Sísifo pesa o passado?

 

A compulsão é a maldição?

 

Sobe o morro

repete o gesto

no desespêro

ou

otimista

acha sempre

desta vez dará?

Artigos relacionados

Américo

Há nos Uffizi, em Florença, um retrato, feito por alguém cujo nome se perdeu, de Américo Vespucci, burocrata, navegador, cortesão, homem de negócios, piloto mayor que deu nome ao nosso continente. Mostra-o de perfil, já entrado em anos, com cabelos ralos, o nariz adunco, a face vincada,...

Américo

Fabio S. Erber, Conto de Fabio Erber.

Há nos Uffizi, em Florença, um retrato, feito por alguém cujo nome se perdeu, de Américo Vespucci, burocrata, navegador, cortesão, homem de negócios, piloto mayor que deu nome ao nosso continente. Mostra-o de perfil, já entrado em anos, com cabelos ralos, o nariz adunco, a face vincada, a boca fina e o maxilar marcante. Apesar da idade, o pescoço e os ombros são fortes. E’ um quadro típico da época e poderia ser o retrato de algum condottiere ou de um membro da família Medici, em cujo serviço Américo iniciou a carreira.

De Américo Vespucci da Costa restava, até há pouco tempo, apenas um auto-retrato, feito a crayon, pregado por tachas em uma parede de um pequeno hotel de Itacuruçá.  Por algum motivo, a filha do dono encantou-se com ele e pregou-o no hall, onde poucos hospedes transitam e ainda menos lhe dão atenção.

Embora, para sua dor, Américo Vespucci da Costa jamais tenha cruzado o Atlântico e, muito menos, visitado os Uffizi, é possível que tenha visto em algum lugar a reprodução desse retrato de Vespucci, o navegador. Talvez seja coincidência. Ou  destino. Ou, simplesmente, a lógica do retratar.

O fato é que a pose é a mesma, de perfil. No entanto, embora os elementos sejam os mesmos, o resultado é distinto. Não se tem a impressão de força – é tudo em tom menor e é necessário observá-lo atentamente (o que poucos fazem) para detectar a vida por detrás do traço.

Assim como o Vespucci navegador, o da Costa era filho de um tabelião. Os pais morreram cedo e o menino foi criado por um tio solteirão, homem de poucas palavras e afetos mas que o provia dos meios materiais. Não tinha irmãos ou primos e, quando o tio morreu subitamente, atravessando uma rua de Vitória, descobriu-se órfão.

O desamparo coincidiu com a descoberta de seu nome. Até então, aceitara o nome com naturalidade. No colégio, estava registrado como Américo V. da Costa e nunca se preocupara com o Vespucci, atribuindo-o a alguma longínqua italianidade.

Cedo mostrara facilidade para o desenho e, terminado o colegial, inscrevera-se na Escola de Belas Artes. Ao preencher os papeis tivera que colocar o nome completo e o Vespucci, pela primeira vez, chamou-lhe a atenção. Em casa, perguntou ao tio sobre a origem do nome e espantou-se mais ainda quando esse, avaro de sentimentos, mostrou grande irritação, negando qualquer italiano na família e dando como razão a loucura do pai.

Embora esmaecida, a figura do pai era de retidão cartorial e nada fazia supor alguma extravagância, muito menos desvario. Pressionado, o tio aludiu a outras vidas, menos regradas do que a foto paterna de terno-e-gravata, emoldurada em prata, sugeria.  A morte súbita do tio interrompeu o desvendar do passado.

O nome tornou-se obsessão. Buscou informações com velhos amigos do pai, mas esses eram poucos e eram discretos ou pouco sabiam. Uma longa pesquisa pelos poeirentos cartórios de Vitória e Alegre levantou uma arvore comum, com raízes em imigrantes portugueses e libaneses, sem qualquer ramo remotamente italiano.

A única pista encontrou-a numa velha pasta, guardada no sótão da casa, onde havia cópias de mapas antigos. Entre esses estava o  grande planisfério de Waldsemüller, onde o nome América foi pela primeira vez usado.  Na parte superior – o hemisfério do Mundo Antigo – havia o retrato de Ptolomeu e, abaixo, no Novo Mundo, o retrato de Américo Vespucci, mais jovem que no retrato dos Uffizzi

Tangido pela orfandade, tentou seguir os rastros do pai desconhecido. Enfurnou-se na biblioteca da Universidade mas pouco encontrou. Apenas o suficiente para firmemente tomar o partido dos defensores de seu homônimo, contra os que o acusavam de ser um usurpador de méritos alheios.

Logo descobriu que sua paixão era motivo de irrisão e aprendeu a silenciar. No entanto, passou a assinar Américo Vespucci da Costa. Sentiu-se tentado a reclamar um distante parentesco mas a vergonha o impediu. Deu, porém, para ficar horas olhando o mar, tentando imaginar a travessia do Atlântico naqueles barquinhos de madeira e as viagens ao longo da desconhecida costa americana. Mais que tudo, impressionava-o a paixão que inspirara aqueles percursos e que, acreditava, levara o pai a dar-lhe aquele nome de destino.

O mar, porém, inspirava-lhe terror. Sabia nadar,  porém nada impedia o pânico que sentia ao entrar na água. Inscreveu-se em um curso de vela, mas não conseguiu entrar no barco.

Aos poucos acreditou reconciliar-se com o nome e tentou retomar o curso normal da vida. Esperava ser artista. Apesar do bolor da Escola, foi descobrindo a gloria da cor e movimento dos volumes. No entanto, embora fosse capaz de reproduzir com fidelidade e facilidade obras alheias, quando tentava algo próprio, o resultado era sempre insosso. Tentou todos os meios, do óleo às colagens – horas diárias – o fim era sempre frustração. Professores e colegas não se davam conta de sua angústia e elogiavam-lhe a técnica e o apuro.

Convenceu-se que o mar e a pintura estavam, de alguma forma, associados. Quando superasse o medo de um a outra brotaria. Porém, para romper as cadeias precisava de uma força externa. Sozinho, não conseguiria.

Em busca de uma paixão que o libertasse, enamorou-se por uma colega. Mais velha, já com um filho, Vitória era ruiva e vulgar. Alegre, apesar da falta de dinheiro. Tímido, a princípio circum-navegou-a. Quando a despejaram do quarto que alugava, encontrou a brecha que buscava, oferecendo-lhe um, na casa que herdara do tio.

Vitória e o garoto apossaram-se da casa com a tranqüilidade dos conquistadores. O recato do jardim fronteiro foi eviscerado, agregou-se um vira-latas a seu convívio e a casa tornou-se ponto de festas que varavam a noite, para reclamo e horror dos vizinhos. Américo sofria e rondava Vitória, sem ousar protestar ou pedir. Até que uma noite, com ar enfastiado, ela o levou para a cama. Onde ele descobriu, aterrorizado, a ejaculação precoce.

Aquilo pareceu diverti-la e todas as noites voltavam à cama, sempre com o mesmo resultado. Vitória aumentava a tortura repetindo que era a falta de paixão a causa de sua insuficiência.

Para convencê-la da paixão, decidiu pintar-lhe o retrato. Pediu-lhe uma fotografia, mas ela o escarneceu. Que a pintasse como a sentia.

Passou dias escolhendo o estilo em que pintaria sua paixão. Finalmente, decidiu-se por um retrato naturalista. Mesmo sem uma fotografia, tinha-a presente na vista. Passou dias trabalhando, buscando o traço que melhor expressasse o oval do seu rosto, o tom que traduzisse fielmente a cor de seus cabelos, o brilho dos lábios.

Terminou-o numa manhã. No período final trabalhara noite e dia, sem cessar.

Encontrou-a na cozinha, tomando o seu tardio café. De trás das costas, retirou o retrato escondido, as tintas ainda frescas. Colocou-o à distância necessária e esperou, trepidante.

Vitória olhou para o retrato algum tempo, e bocejou:

– É… a cara está aí… Mas a alma não!

Enquanto jogava o resto de café no lixo, olhou uma vez mais para o retrato e perguntou:

– Essa é a paixão que você tem por mim? Essa coisa acadêmica  e insossa?

Américo saiu de casa sem dar palavra. Andou a esmo o resto do dia. Sentia tantas dores que não sabia de qual delas tratar. Tentou por ordem na dor, indagando-se se tivesse feito o retrato em outro estilo o resultado teria sido distinto. Respondeu-lhe a sensação de completa impotência.

Ao voltar para a casa, em busca de abrigo, encontrou Vitória na cama, com um colega. Sem conseguir falar, Américo foi expulso de casa, aos berros. Levava o retrato nas mãos

Começou a beber ao pôr do sol e seguiu pela noite. De madrugada, quando o ultimo bar fechou, sentindo a humilhação latejando, foi pela ponte, pensando na morte. Dela – mas não se sentia capaz. Mesmo que tivesse uma arma, sabia que não conseguiria atirar. E a humilhação seria ainda maior. Talvez, então, a própria.

A idéia ia ganhando força quando lembrou do nome. O mar, essa era a solução. Afogar-se era um bom fim para quem tinha esse nome. Podia pular da ponte e seria rápido. Só havia uma velha ali perto, parada, e não podia impedi-lo. Jogou o retrato no mar. A correnteza o levou, mas ficou olhando-o até desaparecer. Apoiou os cotovelos na mureta e ficou olhando a água, buscando coragem.

Ate que tocaram em seu braço. Era a velha. Era muito velha, tinha olhos fundos,  sem pupilas.

– Você está com a morte nos olhos, mas é muito cedo.

Para seu espanto, a voz  áspera não tinha piedade.

Ficaram olhando-se muito tempo. Ate que ela acrescentou:

– A paixão é feita de fogo e vento. Busque o fogo, não a água.

E afastou-se, sem olhar para trás. Apoiado na mureta, Américo chorou sua humilhação e sua dor.

Voltou para casa três dias depois. Encontrou-a aberta, vazia. Só haviam ficado os móveis mais pesados, difíceis de carregar. Pregado na cama um bilhete de Vitória, notificando a mudança e culpando-o. Mas só sentiu alivio.

Vendeu a casa e os móveis, tudo a bom preço. Guardou só os mapas antigos. Com os mapas, seu material de desenho e poucas roupas, iniciou a viagem. Fiel a seu nome, seguia o mar, junto à costa.

Recapitulava continuamente o diálogo com a velha. Tinha certeza que nele havia um significado para sua vida.

Buscava o fogo e o vento. As vezes encontrava um, às vezes o outro, nunca os dois juntos. Encantou-se com a chama dos poços de petróleo, mas eram muito distantes e, de alguma forma, desumanos. O vento de Búzios e Cabo Frio, que mexe nas dunas mudando-lhe as formas, fê-lo ficar por lá alguns anos.

Ganhava algum dinheiro desenhando retratos de turistas, pintando murais e insígnias em lojas e restaurantes. Suas demandas eram poucas. Morava só, em quartos alugados ou cabanas de pescadores. As pessoas o tratavam bem, mas mantinha-se distante, especialmente das mulheres. Apresentava-se como da Costa e ninguém notava a ironia. Não pintava ou desenhava para si, apenas como profissão.

Uma noite, andando na praia, viu a velha da ponte. Correu ao seu encalço, mas não a encontrou. Agitadíssimo, voltou à sua cabana. Abriu a sacola onde estavam os mapas. Todos, menos um, haviam-se esfarelado. Só restava o planisfério de Waldesmüller.

Aquele presságio o transtornou. A velha cobrara-lhe a continuidade da viagem. Acusava-o de ter ancorado em um porto protegido, de águas rasas, interrompendo a busca que o nome lhe impunha. Mas ele não se sentia capaz. Não conseguia pintar nem enfrentar o mar.

A cobrança passou a persegui-lo, até que fugiu. Na rodoviária pegou o primeiro ônibus.

No Rio não resistiu. Em todas as ruas imaginava que, dentre as pessoas que dormiam na calçada, iria levantar-se a velha da ponte e demandar-lhe fogo e vento. Ou acreditava vê-la do lado de fora da porta do quarto, esperando.

Tornou-se incapaz de desenhar, mesmo o mais banal dos retratos de turistas basbaques, que passeiam o tédio pela Avenida Atlântica.

Reuniu então os poucos restos e fugiu novamente. Ao acaso, tomou o velho trem que desce a costa e, sem escolher, saltou em Itacuruçá.

Deu as costas ao mar e foi trabalhar nas plantações de bananeiras. A terra e a chuva, misturadas com o vento, foram, aos poucos, dando-lhe equilíbrio. Era tido por louco, porém manso e trabalhador. Nunca se embriagava e morava sozinho. Era conhecido por Américo.

Embora não a abrisse, guardava a sacola com o material de desenho e o planisfério.

Aos domingos ou em dias de folga ia à igreja. Não por fé, mas para ver as pinturas. Depois de visitar todas, escolhera a católica, na praça principal, porque tinha mais quadros e as cores eram esmaecidas. Ficava horas imaginando como eram quando novas.

Também recomeçou a ver o mar. Primeiro aos poucos, depois o dia inteiro. Percebeu que já não tinha medo. Largou as bananeiras e arranjou um trabalho em um barco que transportava bananas ao longo da costa. A mistura de cheiros, da terra e do mar, deixava-o bêbado e reconfortado. Finalmente, buscou o fogo. Inicialmente em terra, em fogueiras. São João o encantava. Depois, tentou achar o fogo no mar. Explorava o litoral e as ilhotas, buscando um sinal.

Até que uma manhã, sentado na praça, viu passar uma jovem, na fímbria entre a adolescente e a mulher. Era um pouco gorda, muito branca e tinha os cabelos compridos, de um castanho avermelhado. Espantado, ouviu-se dizer “puro Ticiano”. Ela achou que era um galanteio, partido de um velho mal-cuidado, e fechou a cara, apertando o passo. Ele foi para casa e desenhou-a.

No início, havia o inefável prazer do oficio, o desencerrar um saber que temia perdido, a magia de dar nexo ao papel branco. Concluído, era aquilo mesmo: um desenho bem-feito, sólido, acadêmico, sem paixão. Não houve o milagre que, secretamente, esperara.

Mesmo assim, depois desenhou varias pessoas da cidade e algumas paisagens. Não  vendia esses desenhos – dava-os a quem os elogiasse. Talvez ainda existam alguns. É desta época  seu auto-retrato, o último que fez.

Junto com o desenho, redescobriu o planisfério e seu nome. Aos poucos, foram-no reconquistando. Passava horas esmiuçando os detalhes do mapa, reconstituindo passagens que manchas haviam apagado. Copiou inúmeras vezes o retrato de Américo Vespucci.

Em noites de tempestade, ia para o pequeno cais olhar o mar, deixando que o vento lhe corresse o corpo. Cada vez mais, buscava o fogo.

Até que, numa noite de lua-nova, encontrou-o. Havia muito vento mas ainda se viam estrelas. Ao largo, viu brotar uma labareda. Imensa e fugaz. Não se surpreendeu. Marcou o lugar pela posição das estrelas e correu para casa.

Jogou a sacola com o material de desenho e o planisfério num bote e fez-se ao mar. Era um barco tosco, de madeira, equipado com uma pequena vela.

O vento estava a seu favor e sentia-se quase voando, bêbado. Atras, o céu começou a fechar, mas não sentiu medo. Sabia onde ia. Quando estava quase lá, já dando para ouvir as ondas quebrando, caiu a chuva. Mas era tarde.

Quando o barco bateu, estava em pé na proa e foi arremessado para frente. Muito para frente.

Afundou muito e voltou devagar, sempre em frente. Até que estava numa praia, no escuro. Sem chuva.

Havia uma mulher. Alta, parecia jovem. Era ruiva mas tinha olhos escuros. Muito fundos. Perguntou-lhe se naufragara. Soube que toda sua vida dependia da resposta. Empertigou-se e encarou-a, negando. Viera por sua vontade. Ajoelhou-se na areia e, com o indicador, fez-lhe o retrato, em traços rápidos e sem hesitação. Os dois ficaram examinando-o. Era perfeito. Américo sentia-se orgulhoso. Veio uma onda e apagou-o, mas isso não o incomodou.

A mulher sorriu, virou-se e afundou na escuridão. Américo seguiu-a. Iam por uma floresta que parecia muito antiga, mas a trilha era bem cuidada. Nas margens havia estátuas de bichos, cobertas de vegetação, ou bichos que pareciam estátuas. Até que chegaram a uma gruta.

Sem dizer nada, a mulher pegou-o pela mão e entraram, com os pés afundando em musgos.

A gruta era uma passagem, cheia de ruídos esvoaçantes. Veio-lhe o terror, mas agarrou-se à mão adiante.

Quando saíram, chovia novamente. O vento trazia o barulho do mar. Com os pés na lama, chegaram ao buraco. De lá saía a chama, onde Américo Vespucci da Costa se consumiu, completando seu longo périplo.

De manhã, com o sol tímido de inverno, acharam o bote em uma praia próxima a Itacuruçá . Metade dele, sem o mastro e a vela. No fundo, porém, estava a sacola de Américo, com o material de desenho e o planisfério.

O material despertou pouco interesse: deram-no a uma criança para brincar. No entanto, o mapa era outra coisa. Ninguém tinha visto coisa igual: Américo nunca o mostrara. Um sugeriu que fosse antigo e, assim, valioso. Mas outro apontou para o verso, onde alguém, talvez o tabelião, fiel a seu oficio, carimbara em letras maiúsculas de imprensa, em tinta azul, CÓPIA. Embora esmaecido, o carimbo ainda era legível.

Cópias, contrafações, simulacros, todos sabiam ser de pouco valor. Assim, jogaram-no fora.

Quanto a Américo Vespucci da Costa, deram-no por morto, mas, por ignorarem seu nome completo, não registraram a ocorrência.

Artigos relacionados

Um economista do desenvolvimento

Wagner Bittencourt de Oliveira, Estratégias de desenvolvimento, política industrial e inovação: ensaios em memória de Fabio Erber / Organizadores: Dulce Monteiro Filha, Luiz Carlos Delorme Prado, Helena M. M. Lastres. – Rio de Janeiro : BNDES, 2014.

texto escrito pelo então Vice-presidente do BNDES

Fabio Erber foi um economista do desenvolvimento, precursor e protagonista das políticas de inovação no Brasil. Homem de ideias e ações que teve sua trajetória profissional marcada pelo desafio na realização de mudanças econômicas fundamentais para o país. Professor, intelectual e policy maker, sua produção científica influenciou gerações de economistas, e englobou desde o reconhecimento do papel fundamental de setores como bens de capital, até questões mais centrais do pensamento desenvolvimentista. 

No BNDES, onde ingressou como economista em 1964, ocupou duas vezes o cargo de diretor, participando de ações que marcaram momentos importantes da instituição. Em 1992-1993, foi responsável pelas áreas de crédito direto para a indústria, agricultura e serviços, em um período delicado de tentativa de recuperação do papel das políticas de longo prazo. Como diretor responsável pela Área de Planejamento, em 2003-2004, participou direta e ativamente da formulação e execução da primeira iniciativa de política industrial, com foco na estrutura produtiva do país, considerando o papel diferenciado de setores e cadeias produtivas na dinâmica do desenvolvimento econômico e das inovações tecnológicas. Em 2004, de forma a contribuir para a implementação da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), lançou o Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Cadeia Produtiva Farmacêutica (Profarma) do BNDES, que contemplou subprogramas específicos de estímulo ao investimento, ao fortalecimento das empresas nacionais e a pesquisa, desenvolvimento e inovação. Nesse mesmo ano, foi recriado o Fundo Tecnológico (Funtec), destinado a apoiar a inovação com recursos do lucro do BNDES, o qual recupera importante instrumento complementar ao crédito e à participação acionária, extinto quando da criação da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), atual Agência Brasileira de Inovação.

A lembrança que fica é que suas ideias não estavam restritas apenas ao mundo acadêmico. Fabio Erber esteve diretamente envolvido na formulação e execução da política econômica de longo prazo, em especial da política de desenvolvimento tecnológico e industrial, nos momentos cruciais do país.

Prefácio

Com a publicação deste livro, o BNDES presta uma merecida homenagem a Fabio Erber, reconhecido como um homem singular com capacidade plural. Não apenas por seu valioso legado à economia política e à teoria do desenvolvimento, mas por sua ampla cultura e engajamento...

Prefácio

Luciano Coutinho, Estratégias de desenvolvimento, política industrial e inovação: ensaios em memória de Fabio Erber / Organizadores: Dulce Monteiro Filha, Luiz Carlos Delorme Prado, Helena M. M. Lastres. – Rio de Janeiro : BNDES, 2014.

Com a publicação deste livro, o BNDES presta uma merecida homenagem a Fabio Erber, reconhecido como um homem singular com capacidade plural. Não apenas por seu valioso legado à economia política e à teoria do desenvolvimento, mas por sua ampla cultura e engajamento político para o progresso industrial do Brasil. 

Este grande economista do desenvolvimento e da inovação foi pioneiro em entender, elaborar e introduzir no Brasil e na América Latina algumas das percepções mais avançadas sobre tais temas. Aliou com destreza essa capacidade com criatividade, perspicácia e conhecimento dos contextos históricos e políticos. 

Como mostrado por diferentes autores neste livro, Fabio Erber foi responsável por inaugurar linhas de pesquisas, as quais abrangeram desde seu foco central em política industrial e tecnológica, até as pesquisas sobre defesa da concorrência e economia política monetária contemporânea. Com competência incomum, articulou estudos teóricos de diversas linhas do pensamento com o desenho pragmático de políticas. Destaquem-se, em particular, suas contribuições à formulação de políticas de desenvolvimento estruturantes com visão de longo prazo. 

Conheci Fabio Erber quando juntos, ele como secretário executivo adjunto, estruturamos o Ministério da Ciência e Tecnologia. Trabalhamos intensamente durante quatro anos, entre 1985 e 1988. Depois desse período, mantivemos durante muito tempo estreita interação intelectual e acadêmica, ele como pesquisador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e eu como professor da Universidade Estadual de Campinas. 

Como cidadão político e no exercício das funções de professor, pesquisador, economista profissional e gestor governamental, sempre se pautou pelo espírito público e pela dedicação ao desenvolvimento do Brasil. Fabio Erber honrou esses valores como poucos. Tal como testemunham os autores deste livro, suas contribuições têm grande amplitude e aplicabilidade. Esperamos que a publicação deste livro contribua para revigorar suas reflexões e para estimular processos criativos de aprendizado.

Sua atuação no BNDES, igualmente destacada no livro por executivos e ex-assessores, ofereceu-lhe a oportunidade de experimentar na prática os sofisticados e densos conhecimentos que acumulou. Sentimos sua falta. Principalmente quando se registram no Brasil importantes avanços econômicos, sociais, políticos e institucionais, que contribuem para mitigar desigualdades e implantar as bases para impulsionar um ciclo virtuoso de desenvolvimento, que combina um quadro macroeconômico estável com enraizamento da democracia e da inclusão social, dinamização do mercado doméstico, expansão do crédito e grande potencial de investimentos em infraestrutura e revitalização industrial. Quando o mundo inteiro busca novos modos de desenvolvimento sustentável social e ambientalmente, novos paradigmas produtivos e inovativos e atividades motoras do dinamismo e, em seus próprios termos, novas convenções do desenvolvimento. Quando o BNDES e demais bancos oficiais são convocados para atuar de modo ainda mais vigoroso com o objetivo de contra-arrestar os impactos negativos da crise internacional e de formular novas propostas para o desenvolvimento de longo prazo. E quando uma nova geopolítica mundial se configura, acompanhada da reestruturação dos organismos internacionais de financiamento, exigindo novos papéis e formas de atuação dos bancos de desenvolvimento, individualmente e em conjunto, reunindo diversos países, como é o caso de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (Brics). 

Rendemos, assim, nossa homenagem a esse grande brasileiro que dedicou a vida ao desenvolvimento. Como comprova este volume, seu importante legado ao entendimento do desenvolvimento produtivo e inovativo, especialmente no Brasil e em países latino-americanos, nos oferece alento e, acima de tudo, valiosas lições. Lições estas que em muito nos auxiliam a compreender os desafios do futuro, assim como ajudam a desenhar novas políticas voltadas para as oportunidades que se descortinam. 

Bom proveito deste mergulho no patrimônio precioso de conhecimentos que Fabio construiu e nos legou.

Inovação e desenvolvimento: a força e...

1. Introdução 

As noções de que o desenvolvimento econômico e social resulta de mudanças qualitativas e de que nessas transformações a endogeneização da capacidade de promover inovações tem um papel central incluem-se entre as principais...

Inovação e desenvolvimento: a força e permanência das contribuições de Erber

Helena M. M. Lastres, José Cassiolato, Estratégias de desenvolvimento, política industrial e inovação: ensaios em memória de Fabio Erber / Organizadores: Dulce Monteiro Filha, Luiz Carlos Delorme Prado, Helena M. M. Lastres. – Rio de Janeiro : BNDES, 2014.

The text examines some of Fabio Erber’s central contributions to Latin-American thought on development, technology and policy – the importance of endogenizing technical progress, the systemic nature and the local specificities of the innovation process, etc. and the role of the State in these processes. This recalls Erber’s discussion on the function of explicit and implicit policies; aspects of macro, meso and micro innovation; technological and economic relations of Latin-American countries with the most advanced countries and transnational corporations located there; the capacity of local companies to acquire technological know-how; and the limitations of using foreign technology as a focus and the main mechanism for local capacity-building. The text argues that Erber’s ideas, besides representing a pioneering contribution to understanding the circumstances that restricted the creation of production and innovative capacity in Latin-American economies over the last century, are still extremely useful in understanding the limits of current policies, dilemmas and opportunities for Brazilian development.

1. Introdução 

As noções de que o desenvolvimento econômico e social resulta de mudanças qualitativas e de que nessas transformações a endogeneização da capacidade de promover inovações tem um papel central incluem-se entre as principais contribuições da abordagem estruturalista latino-americana. Surgidas no debate que teve lugar ao fim da Segunda Guerra Mundial, essas noções se intensificaram com o reconhecimento dos limites do processo de substituição de importações nos anos 1960, entre outros aprendizados práticos e teóricos, sofrendo aperfeiçoamentos que as revigoram até os dias de hoje. A sua prevalência é reconhecida, pois, apesar de inúmeras tentativas de promover capacitações científico-tecnológicas, as estruturas produtivas dos países latino-americanos, incluindo o Brasil, continuam a apresentar fragilidades na montagem de uma estrutura inovativa autóctone e dinâmica. Fabio Erber foi tanto um dos pioneiros como um dos expoentes nesse debate. Produziu, especialmente nos anos 1970 e 1980, contribuições clássicas que ainda se mostram atuais e valiosíssimas para se compreenderem os processos de desenvolvimento tecnológico na região, seus problemas e limitações e os impasses que dificultam e restringem uma efetiva incorporação virtuosa do progresso técnico nas economias latino-americanas.

Interagimos com Fabio Erber em diferentes circunstâncias e situações. O papel da tecnologia nos processos de desenvolvimento, a importância das políticas públicas e privadas e o papel dos diferentes atores, nacionais e estrangeiros, no desenvolvimento de países como o Brasil foram objetos de inúmeras conversas e discussões. Com Cassiolato, durante 1977-1978, na Universidade de Sussex, Inglaterra, tanto durante as atividades formais da universidade quanto em longas caminhadas nas colinas de Falmer, Brighton; durante 1980-1981, no Instituto de Economia da UFRJ; e, posteriormente, quando ambos participaram da constituição da nova institucionalidade governamental, que resultou na criação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), no qual ambos ocuparam cargos, entre 1985 e 1988 – Erber como secretário executivo adjunto e Cassiolato como secretário de planejamento. Lastres, nessa época, chefiava o Núcleo de Novos Materiais, também ligado ao novo MCT, que tinha como ministro Renato Archer, e vice-ministro, Luciano Coutinho. Uma nova rodada de interação ocorreu nos anos 1990, quando nos reencontramos no Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Este texto pretende discutir algumas das contribuições centrais de Fabio Erber ao pensamento latino-americano sobre desenvolvimento, tecnologia e políticas. Objetiva-se extrair elementos considerados válidos e capazes de ampliar o entendimento da questão do desenvolvimento produtivo e tecnológico, assim como suas implicações para a política. Tais contribuições dizem respeito à importância da endogeneização do progresso técnico, do caráter sistêmico e das especificidades locais do processo de inovação e do papel do Estado nesses processos.

Em primeiro lugar, visa-se resgatar a discussão que Erber realiza sobre as necessárias e inevitáveis relações econômicas e tecnológicas dos países latino-americanos com os países mais avançados e com as corporações transnacionais lá sediadas. Em segundo lugar, e de forma articulada, sobre os condicionantes do aprendizado tecnológico por parte de empresas locais e as limitações da utilização de tecnologia estrangeira como foco e mecanismo principal dos processos de capacitação local. Em terceiro, a forma como Erber analisa o papel das políticas explícitas e implícitas e os aspectos macro, meso e microeconômicos da inovação.

O artigo argumenta que essas ideias representaram uma contribuição significativa à compreensão dos condicionantes que restringiram a endogeneização do progresso técnico por parte das economias latino-americanas nos anos 1970 e 1980, ao contrário do sucesso alcançado por diferentes economias asiáticas, como o Japão e a Coreia do Sul. Ao retomar as características fundamentais da situação brasileira na segunda década do milênio, percebe-se que essa contribuição permanece extremamente útil para se compreenderem os limites das políticas de inovação, os dilemas e as oportunidades do desenvolvimento tecnológico.

Do ponto de vista conceitual, o texto vale-se da abordagem de sistemas de inovação como elemento central do processo de desenvolvimento econômico e social. Essa abordagem, conforme utilizada pela RedeSist, articula a abordagem neoschumpeteriana com o estruturalismo latino-americano, em especial no que se refere à centralidade do progresso técnico nos processos de desenvolvimento.1 

O estudo está organizado da seguinte maneira. Na segunda seção, discutimos a questão da endogeneização do progresso técnico. Na terceira, os condicionantes e limites do aprendizado por parte de atores econômicos e sociais na América Latina são objeto de análise. Na quarta seção, debatemos a importância de atividades portadoras do progresso técnico e o caráter sistêmico do desenvolvimento tecnológico e da inovação. O papel dos diferentes atores empresariais no sistema nacional de inovação é analisado na quinta seção; já a importância das políticas públicas e o papel do Estado são discutidos na sexta. Nas conclusões, é enfatizada a relevância das ideias de Fabio Erber no contexto atual da globalização dominada pelas finanças.

2. Desenvolvimento e Endogeneização do Progresso Técnico

As principais contribuições de Fabio Erber produzidas a partir do início dos anos 1970 enfatizaram a necessidade de endogeneização do progresso técnico como fator fundamental do processo de desenvolvimento brasileiro. Elas constituíram parte importante do debate sobre a insuficiência da industrialização na qualidade de elemento transformador das estruturas econômicas e sociais do país. Erber apontava que o modelo de industrialização adotado, com base na substituição de importações, mostrava-se incapaz de resolver os sérios problemas brasileiros de desigualdade, em especial de incorporar a população brasileira de baixa renda. Na mesma linha do economista Celso Furtado, Erber sustentava que a importação de tecnologia era reforçadora de problemas, na medida em que as tecnologias trazidas – intensivas em capital – haviam sido desenvolvidas para países com diferentes condições e dotações de fatores [Erber (1972)].

Um dos pontos centrais do pensamento estruturalista latino-americano é que as mudanças na economia ocorrem por meio de descontinuidades (geralmente de caráter tecnológico) que afetam, e também são afetadas, pela estrutura econômica, social, política e institucional de cada nação. 

Nessa perspectiva, o desenvolvimento é considerado processo único, não linear e não sequencial. É, portanto, muito criticada a hipótese de alcançar o desenvolvimento por meio de processos de catch-up a partir da importação, reprodução e adaptação de técnicas supostamente superiores de desenvolvimento para outros contextos históricos.2

A mobilização do progresso técnico e a capacidade de tornar endógenos os processos de inovação são consideradas as principais determinantes da dinâmica de acumulação capitalista e de seu desenvolvimento.  Os avanços (produtivos, tecnológicos, organizacionais, institucionais etc.) resultantes de processos inovativos são tidos, assim, como fatores básicos na formação dos padrões de transformação da economia, bem como de seu desenvolvimento de longo prazo. 

As nações que, historicamente, se colocaram à frente do processo inovativo tenderam a ser mais dinâmicas e competitivas, obtendo melhor desempenho econômico e maior poder geopolítico. Dessa forma, foram se estabelecendo as linhas divisórias entre os que estão capacitados a promover ou participar ativamente da dinâmica da inovação e de desenvolvimento e aqueles que foram, ou tendem a ser, deslocados e marginalizados. Freeman (1988), o decano dos autores da corrente neoschumpeteriana, afirma que o hiato temporal entre inovadores e imitadores está positivamente relacionado à sustentação do fluxo de inovações pelos inovadores e à fragilidade das condições necessárias para inovar nos países imitadores. As “assimetrias tecnológicas” agem, ao mesmo tempo, como uma barreira ao acesso às novas tecnologias e como um novo incentivo à inovação para aqueles (empresas, organizações ou países) que estão liderando o processo tecnológico.

Furtado (1983) apontava que, uma vez estabelecido o padrão de apropriação do produto social, o comportamento dos agentes dominantes – organizações e países que controlam posições estratégicas – passa a ser guiado pelo propósito de conservar os privilégios alçados e de que desfrutam. Dessa forma, compreendia a subordinação da inovação aos processos de acumulação e competição capitalista, visando perpetuar e intensificar a reprodução de assimetrias internacionais econômicas, tecnológicas e de acesso ao conhecimento e ao aprendizado.

A visão que Fabio Erber enfatizava, já em seus trabalhos dos anos 1970, tinha como ponto fundamental essa mesma noção de que a orientação dada ao desenvolvimento tecnológico relaciona-se às especificidades e interesses das nações que lideraram esse processo. Essa percepção ressalta a descontextualização e inadequação dessas técnicas ao conjunto de recursos produtivos disponível nos países menos desenvolvidos, entre outras limitações [Erber (1972; 1977)].

Na esteira de outros autores latino-americanos, como Octavio Rodríguez e Celso Furtado, e como apontado por Prado (2011), Erber correlacionou a importação de padrões de consumo no Brasil à importação de tecnologias estrangeiras, impossibilitando o desenvolvimento de tecnologias adequadas às condições brasileiras. Em tal contexto, as empresas de propriedade local tiveram um papel subordinado tendendo a utilizar, de forma defensiva, o licenciamento de tecnologias estrangeiras para poder competir com as filiais de empresas transnacionais.

Em texto que tinha como objetivo principal realizar uma comparação das experiências de desenvolvimento tecnológico e suas políticas no Brasil e em países capitalistas centrais, Erber enfatizava a importância de avançar o entendimento das novas formas de competitividade, assim como do papel do progresso técnico, das empresas transnacionais e seus oligopólios:

foi só após a II Guerra Mundial que os economistas passaram a dar mais atenção às condições que proporcionam o progresso técnico, abandonando a visão do desenvolvimento tecnológico como um fenômeno exógeno à esfera econômica. Subjacente a esse novo interesse estava não apenas a intensificação do ritmo de inovações, como o reconhecimento da expansão dos mercados organizados de forma oligopólica, onde a constituição de barreiras à entrada e a competição com base na diferenciação de produtos eram fortemente influenciadas pelo progresso técnico. Especialmente importante nesse contexto foi o reconhecimento de que um ator passara a desempenhar papel de importância crescente no cenário mundial: as firmas multinacionais [Erber (1980, p. 10)].

3. Assimetrias de acesso ao conhecimento e ao aprendizado

Fabio Erber discute, de forma pioneira e em diversas ocasiões, os condicionantes e limites do aprendizado por parte de atores econômicos e sociais na América Latina. Particularmente relevantes são duas de suas contribuições: a tese de doutorado sobre desenvolvimento tecnológico no caso de bens de capital no Brasil [Erber (1977)] e um texto onde ele comenta e critica as literaturas da dependência latino-americana e a de inspiração neoclássica sobre aprendizagem [Erber (1983)]. Erber aponta como os diversos tipos de assimetria – particularmente as de poder econômico e político – limitam o aprendizado local e as possibilidades de implementar estratégias de desenvolvimento autóctone. Ressalta especialmente as limitações de pôr em prática os conhecimentos adquiridos por meio de licenciamento de tecnologias externas.

Nesses trabalhos, Erber já sugere que as assimetrias tecnológicas são apenas um dos elementos de assimetrias mais amplas e complexas, as quais implicam a impossibilidade de acessar, compreender, absorver, dominar, usar e difundir conhecimentos. Reforça as percepções de que, na grande maioria dos casos, mesmo quando o acesso à nova tecnologia torna-se possível, esta não é adequada à realidade dos países periféricos e de que estes não dispõem de conhecimentos suficientes para fazer uso adequado dessa tecnologia. Isso porque as necessárias capacidades produtivas e inovativas nem sempre estão disponíveis ou suficientemente desenvolvidas. Assim é que, ao discutir as características e impactos das transformações associadas ao desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicações (TIC), aponta a ampliação da separação entre Norte e Sul e a criação de novas formas de divisão do desenvolvimento muito mais sérias do que a tão discutida divisão digital. Arocena e Sutz (2003 e 2005) avançam essa conclusão, argumentando que as novas formas de divisão do conhecimento passam a constituir o aspecto maior da problemática do subdesenvolvimento.

De fato, a importância do conhecimento, assim como da forma e dos condicionantes que cercam seus processos de difusão, aprendizado e acumulação, é destacada por diversos autores latino-americanos explícita ou implicitamente. Furtado (2003, p. 89), por exemplo, aponta que:  

o avanço da ciência experimental (e do progresso técnico) é facilitado pela secularização do saber e pela difusão dos conhecimentos que acompanham a ascensão da burguesia, atuando como um mecanismo multiplicador, abrindo o caminho à revolução tecnológica. 

Já em 1949, o economista Raúl Prebisch destacava que os problemas da produtividade e do desenvolvimento nos países periféricos também estão relacionados à questão da capacitação e que esta se relaciona intimamente à própria evolução do desenvolvimento tecnológico, constituindo um dos contrastes do grau muito desigual de desenvolvimento. Já nos países industrializados, as aptidões desenvolveram-se progressivamente, à medida que foi evoluindo a técnica produtiva.

Tavares (1972, p. 50), ao analisar o processo de industrialização por substituição de importações, enfatizou que: 

os países subdesenvolvidos importam uma tecnologia que foi concebida pelas economias líderes de acordo com as suas constelações de recursos totalmente diversas das nossas. A necessidade de importar essa tecnologia estaria dada pela impossibilidade de criarmos técnicas novas mais adequadas às nossas condições peculiares. 

Dessa forma, o núcleo industrial pode se desenvolver, em um país periférico, utilizando inovações tecnológicas que permitem aproximar-se da estrutura de custos e preços dos países exportadores de manufaturas, mas que não permitem uma rápida transformação da estrutura econômica, pela absorção do setor de subsistência. Processo este que resulta em lenta modificação da produtividade, da estrutura ocupacional e de desenvolvimento do país [Furtado (1961)]. 

Nesse sentido, é possível industrializar e crescer sem romper com a estrutura de dependência e dominação que perpetuariam o subdesenvolvimento [Furtado (1961; 1974)]. Isso ocorre porque é possível que as economias subdesenvolvidas atinjam um alto grau de diversidade e complexidade produtiva, sem desfazer os laços da dependência tecnológica (e dos conhecimentos necessários a sua geração, difusão e uso) e econômica dos grandes centros. Diante desse quadro, identificou-se o mais importante desafio para os países latino-americanos, o qual é ainda muito pertinente nos dias atuais: nosso desenvolvimento orienta-se mais propriamente por processos de imitação do que por uma reflexão sobre as carências e potencialidades internas. Fajnzylber (1990) resume essa questão da seguinte maneira: 

o traço central do processo de desenvolvimento latino-americano é a incorporação insuficiente de progresso técnico – sua contribuição escassa de um pensamento original, baseado na realidade, para definir o leque de decisões que a transformação econômica e social pressupõe. O conjunto-vazio,3 do desenvolvimento econômico e social latino-americano, estaria diretamente vinculado ao que se poderia chamar de incapacidade de abrir a “caixa-preta” do progresso técnico [Fajnzylber (1990, p. 22)].

Essas condições ampliam as condições assimétricas de desenvolvimento econômico e social existentes entre países do centro e de periferia, as quais são reforçadas pelas diferenças em geração, aquisição e uso de conhecimentos, contribuindo para erigir fossos cada vez mais rígidos entre economias avançadas e periféricas [Lastres, Cassiolato e Arroio (2005)].

4. O Caráter Sistêmico do Desenvolvimento Tecnológico e da Inovação 

A importância da inovação e do progresso técnico pode, portanto, ser mais bem apreciada por intermédio de uma visão ampla, contextualizada e sistêmica do desenvolvimento do capitalismo, principalmente em escala mundial. Furtado é reconhecido como autor que em muito destacou a necessidade de compreender os fenômenos relacionados ao avanço tecnológico por meio de tal perspectiva. Furtado explicita que as manifestações mais significativas do progresso técnico4 somente podem ser captadas plenamente por meio de uma visão global do sistema nacional, que inclua a percepção das relações desse sistema com o ambiente que o controla e influencia [Furtado (1961; 1968)].

Em linha semelhante, a visão neoschumpeteriana entende a inovação como um processo sistêmico, gerado e sustentado por relações interfirmas e por uma complexa rede de relações interinstitucionais dependente de seus ambientes sociopolítico-institucionais. Portanto, o impulso ao desenvolvimento, produzido pela introdução e difusão de novas tecnologias, é considerado resultado de trajetórias que são cumulativas e construídas historicamente, de acordo com as especificidades inerentes a um determinado país, região e atividade produtiva.5

Como objeto principal das preocupações de Fabio Erber quanto ao tipo de desenvolvimento produtivo necessário aos processos de mudança estrutural, apontam-se os estudos por ele realizados nos anos 1970 e 1980 sobre as atividades de bens de capital e de eletrônica. A sua tese de doutorado é uma detalhada e complexa pesquisa sobre bens de capital como atividade central na dinâmica industrial, na medida em que ela apresenta ligações técnicas e econômicas com todo o restante de atividades produtivas [Erber (1977)]. Posteriormente, em uma série de trabalhos sobre as atividades de bens de capital, ele concluiu que o entorno sistêmico dessas atividades gera grande influência na competitividade dos produtores [Erber (1992; 2001); Vermulm e Erber (2002)].

Discutindo a falta dessa perspectiva mais ampla e estratégica da política industrial e tecnológica brasileira, em especial no que se referia às TICs, ele assinalou que décadas de estudos sobre desenvolvimento mostram que as diversas atividades industriais desempenham  papéis diferentes na dinâmica industrial e tecnológica, em função de seus encadeamentos produtivos, tecnológicos e de investimentos, que fazem com que um grupo restrito dessas atividades atue como motor do desenvolvimento [Erber (1992)]. Essa função motriz é cumprida por atividades com alta intensida de tecnológica e capacidade de irradiação para outros setores, como notadamente o caso do complexo eletrônico. Erber utilizava constantemente a frase “computer chips não são equivalentes a potato chips” para indicar a importância relativa da criação de capacitações nas diferentes atividades produtivas. Porém, também enfatizava que, no entanto, no caso brasileiro, não apenas inexistia qualquer hierarquia no tratamento dos diferentes setores e atividades produtivas, como também não havia política especial definida para o complexo eletrônico [Erber e Cassiolato (1997)].

Nesse caso, também a perspectiva sistêmica da inovação aparece de forma destacada, ao serem notadas as 

interdependências nas cadeias produtivas e tecnológicas […] [e que] a ação sobre este conjunto de interdependências remete para as políticas de articulação industrial e de estímulo a segmentos particulares que se apresentam como elos importantes da matriz produtiva [Erber (1992, p. 31)].

A ideia básica de sistemas de inovação é que o desempenho inovativo depende não apenas do desempenho de empresas e organizações de ensino e pesquisa, mas também de como elas interagem entre si e com vários outros atores e como as instituições, incluindo as políticas, afetam o desenvolvimento dos sistemas. Entende-se, desse modo, que os processos de inovação que têm lugar no nível da firma são, em geral, gerados e sustentados por suas relações com outras organizações, reforçando que a inovação consiste em fenômeno sistêmico e interativo.

Outro corolário direto de tal entendimento é que, por exemplo, o setor financeiro e as políticas macroeconômicas mais amplas passam a ser objeto de preocupação e ação. Adicionalmente ao entendimento da natureza sistêmica da inovação, destaca-se a relevância da análise das dimensões micro, meso e macroeconômicas, assim como das características das esferas produtiva, financeira, social, institucional e política. A forma como são criadas e evoluem as capacitações produtivas e inovativas em qualquer país passou então a ser compreendida como função do modo de inserção dos diferentes países na economia e geopolítica mundial e de como se articulam essas diferentes dimensões e esferas.

As implicações de política da visão sistêmica aparecem claramente quando Erber aponta que as situações de atraso vigentes nos países subdesenvolvidos se caracterizam pela ausência de elos centrais na estrutura produtiva e institucional, fazendo-se necessária a ação estruturante do Estado para induzir – ou mesmo assumir a responsabilidade, via empresas estatais – de competências na matriz produtiva e inovativa, envolvendo uma ruptura radical das rotinas preexistentes [Erber (1992)]. 

5. O Papel dos diferentes atores: Empresas Transnacionais e Empresas Locais

O processo de industrialização brasileira, a partir de meados dos anos 1950, é tido como exemplo típico de substituição de importações conduzida pelo Estado com forte participação de capital e tecnologia estrangeiros. O papel do Estado não se restringiu a suas funções fiscais e monetárias tradicionais e à prestação de bens públicos. Um papel mais ambicioso foi concebido, incluindo suporte, definição, articulação e financiamento de grandes blocos de investimento, criação de infraestrutura e produção direta de insumos necessários para a industrialização. 

Tavares e Serra (1973) notam que o investimento público teve importante papel de apoio ao setor privado, em particular ao capital estrangeiro. Consideram que o elemento principal que garantiu o dinamismo econômico do período foi o alto grau de “solidariedade orgânica” entre o Estado e as corporações multinacionais, o que garantiu a formação de externalidades e o suprimento de insumos básicos de baixo custo visando sustentar a expansão das multinacionais nos mercados interno e externo. Foi delegado às empresas transnacionais (ETN), entre outros, o papel de canalizar a tecnologia moderna para a economia, cabendo às empresas de capital local um papel subsidiário. Esse papel central das subsidiárias das ETNs no sistema brasileiro de inovação implicaria a transferência de tecnologia de suas matrizes, e as empresas de capital local utilizariam o licenciamento de tecnologias para também participar dos projetos de substituição de importações.

Seguindo a mesma linha crítica, Erber, nos anos 1980, também mostrava os limites desse tipo de estratégia. Discutindo as limitações para o aprendizado local, advindas das tecnologias trazidas por essas empresas, destaca:  

the limited learning […] in the case of foreign subsidiaries, where the parent company had to transfer a manufacturing and detailed design capability but not the others. The Latin American literature suggests that this strategy was not only due to scale-economies in the production of technology but also to the extraordinary profits they reaped through technology-related intra-firm transactions [Erber (1983, p. 15)]. 

A conclusão de Erber (1983, p.15) é que a transferência de tecnologia a partir dos países centrais é estruturalmente limitada no lado do fornecedor da tecnologia (as empresas multinacionais), tendo em vista suas estratégias globais.6  Mas Erber avança ainda mais quando acrescenta que a dependência de tecnologias estrangeiras – originalmente desenvolvidas para atender a problemas de outras sociedades – limita, também de forma estrutural, a acumulação de capacitações voltadas ao aprendizado por parte das empresas controladas pelo capital local.  

[…] (no Brasil) não existem distinções entre capitais segundo sua origem. No entanto, há uma extensa literatura que mostra que as atividades de P&D de firmas transnacionais tendem a ser centralizadas, normalmente junto ao seu país de origem. A tendência ao uso de tecnologia importada tende a propagar-se, entre os fornecedores e competidores destas empresas. Ignorar a diferença e não negociar a implantação dessas atividades na região implica em aceitar um padrão de programas tecnológicos orientado para atividades de adaptação de tecnologias importadas, mantendo baixo o “teto” destes programas [Erber (1999, p. 15-16)]. 

Utilizando evidência empírica de estudos realizados ao longo dos anos 1970 sobre tecnologia e inovação em empresas brasileiras de capital nacional,7 Erber aponta a baixa capacitação das empresas locais e sua pequena interação com as universidades e institutos públicos de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Sua conclusão é que: 

industrial entrepreneurs […] were […] “satisfied” with a low level of local technological activities and a strong reliance on imported technology […] and […] such “satisfaction” can be understood in the light of the pattern of development followed in Brazil since the mid-fifties […] which reduced the importance […] (of) […] a policy of more technological self-reliance [Erber (1980, p. 422)]. 

Erber sugere algumas razões para que tais empresas tivessem inibidas suas estratégias de desenvolvimento tecnológico local. Em primeiro lugar, a desigual concorrência de tecnologias estrangeiras, a qual elevaria o risco e o custo das tentativas de desenvolvimento local, tendo em vista a política de abertura ao capital estrangeiro. Em segundo lugar, particularmente válido para as indústrias de bens de capital e insumos básicos, havia uma pressão dos clientes, em sua maioria empresas subsidiárias de multinacionais, que frequentemente condicionavam as compras ao uso e licenciamento de tecnologias estrangeiras. Uma terceira razão seria as estruturas de mercado nas quais as empresas locais operavam, que permitiam às empresas repassar aos consumidores o custo das tecnologias importadas. Em quarto lugar, o limitado tamanho do mercado local seria supostamente insuficiente para amortizar os custos do desenvolvimento autóctone. Outra razão seria o horizonte temporal de curto prazo com o qual operavam os empresários locais, em razão da fragilidade da estratégia e do planejamento governamental de longo prazo.

Essas razões se associavam à instabilidade, à vulnerabilidade, à hiperinflação e aos demais desafios colocados pelo quadro macroeconômico e contribuíam para conformar políticas implícitas [Herrera (1975)] e regimes malignos [Coutinho (2003)] que em muito limitavam as possibilidades de sucesso de políticas públicas e privadas para o desenvolvimento produtivo e em especial inovativo. A inércia e a placidez do empresariado brasileiro diante de tais desestímulos levava Erber – com suas ponderações certeiras e ácida ironia – a descrever tal postura como de happy dependency.

6. O Papel do Estado 

As políticas de Estado desempenham papel-chave para o desenvolvimento das nações, principalmente na indução do desenvolvimento de seus sistemas de produção e inovação. Em primeiro lugar, objetiva-se assegurar as condições básicas de um quadro político e macroeconômico favorável à conformação de regime benigno e capaz de estimular o desenvolvimento produtivo e inovativo [Coutinho (2003)].8 

Em segundo, a articulação de uma estratégia convencionada de desenvolvimento capaz de ser implementada [Erber (2011)]. Além disso, destacam-se também os objetivos de fortalecer os vínculos produtivos, os processos de aprendizado e de criação e acumulação de capacitações produtivas e inovativas.

Na visão neoschumpeteriana, essas políticas são ainda mais necessárias em épocas consideradas de mudanças radicais, como aquelas associadas ao advento e à difusão de novos paradigmas técnico-econômicos. Autores como Freeman e Perez consideram que durante o estágio inicial de um novo paradigma tecnológico abre-se uma série de oportunidades e desafios para as nações (principalmente as nações periféricas), as quais não se encontram tão comprometidas com o padrão que está sendo superado. 

Essas oportunidades serão maiores quanto maiores forem a descontinuidade do processo tecnológico e o tempo de adaptação das empresas líderes e instituições das nações centrais, que apresentam maiores graus de comprometimento com os padrões anteriores, fato que tende a gerar um maior nível de inércia às mudanças radicais.

Com base nisso, é que diversos autores sublinharam: (i) a importância de políticas buscando adaptar e reorientar os sistemas produtivos e de inovação aos novos cenários; (ii) que a adaptação da economia tenderá a se transformar em um processo lento e doloroso. Em tais ocasiões, o papel de políticas públicas estimulando a promoção e renovação do processo cumulativo de aprendizado é particularmente destacado.9 Nos países periféricos a importância dessas políticas públicas é exponencialmente aumentada. Nesse caso, sugere-se que as políticas e instrumentos sejam continuamente ajustados e reformulados à medida que as tecnologias evoluem, evitando a retração ou destruição do escasso potencial produtivo e inovativo dessas nações. Essas políticas também devem considerar a necessidade de limitar ou prevenir consequências sociais indesejáveis [Freeman (2004)], buscando, centralmente e antes de tudo, promover o desenvolvimento inclusivo, coeso e sustentável das diferentes regiões e países a que se destinam [Cassiolato e Lastres (1999)].10

A absorção do progresso técnico deveria ser realizada por investimentos nos setores mais dinâmicos e difusores do progresso técnico, setores que teriam a liderança no processo de evolução tecnológica e, dessa forma, seria possível inserir maior dinamismo nas economias periféricas. Em razão das dificuldades previsíveis de acumulação de capital e poupança, esses investimentos deveriam ser feitos majoritariamente pelo Estado de forma direta ou indireta. A industrialização dos países periféricos somente seria possível com o apoio de políticas de planejamento estatal, que Celso Furtado sistematizou e implementou com grande competência.

Fiori (2001) nota que os principais teóricos do estruturalismo latino–americano clássico,11 entre os quais, Furtado, defendiam a presença do Estado no apoio à pesquisa científica e tecnológica, à educação superior e à criação de instituições de fomento e no financiamento tanto à produção industrial quanto à capacitação científica e tecnológica: 

Para o estruturalismo existia a importância do papel do Estado na construção de um sistema econômico integrado e capaz de auto-reproduzir-se, de forma relativamente endógena, graças a uma integração virtuosa entre agricultura e a indústria, ao incentivo estatal ao desenvolvimento tecnológico e à criação de um sistema econômico nacional que priorize o crescimento das forças produtivas (p. 43). 

Conforme argumentado, por exemplo, por Erber e Cassiolato (1997), mesmo durante o auge do neoliberalismo, os Estados jamais deixaram de intervir fortemente para fomentar o desenvolvimento produtivo e tecnológico e a expansão de setores estratégicos para a dinâmica estrutural, mesmo que essas políticas fossem camufladas por imperativos estratégico-militares. Tais políticas, que se caracterizam pela complexidade, visam ao desenvolvimento de atividades consideradas estratégicas para o crescimento econômico e à consolidação das bases regionais e locais para o desenvolvimento tecnológico.

As políticas centradas na promoção de sistemas de inovação e nas relações entre empresas e demais atores diferem das políticas baseadas nas antigas visões dicotômicas e linear da inovação. Quanto à forma, destaca-se a tendência de as políticas focalizarem conjuntos de atores e seus ambientes, visando potencializar, disseminar e tornar mais eficazes seus resultados. Os diferentes contextos, sistemas cognitivos e regulatórios e formas de articulação, cooperação e de aprendizado interativo entre agentes são reconhecidos como fundamentais em geração, aquisição, uso e difusão de conhecimentos, particularmente daqueles tácitos.

Alguns países vêm adotando estratégias que explicitamente visam à mobilização de sistemas de inovação [Cassiolato (1999)].12 Outros países, mesmo que não explicitando essa visão sistêmica, vêm na prática envolvendo atores e mobilizando elementos similares.13 Erber foi um dos primeiros autores brasileiros a salientar a importância da política de inovação no Brasil:  

A análise da participação do Estado no processo de desenvolvimento científico e tecnológico dos países capitalistas centrais sugere três conclusões: 1. Embora o nível de desenvolvimento da acumulação de capital e da divisão de trabalho nas economias centrais favoreça o processo de desenvolvimento científico e tecnológico, essas condições favoráveis são em parte reforçadas pela ação do Estado mas, também, em parte criadas pela interferência estatal; 2. As medidas de apoio do Estado ao processo de desenvolvimento científico e tecnológico (especialmente este último) transcendem o apoio às atividades de P&D. Tais medidas, no entanto, são com frequência tomadas com outros objetivos que não o desenvolvimento tecnológico em si: garantir o suprimento interno de certos produtos, reforçar as condições de competição internacional, etc. Nesses casos o desenvolvimento tecnológico é um meio de atingir tais objetivos mais amplos, especialmente no caso das indústrias de ponta; 3. As medidas de apoio ao desenvolvimento científico e tecnológico estão fortemente concentradas em alguns setores industriais, as chamadas indústrias de ponta, especialmente aquelas ligadas às atividades militares e espaciais [Erber (1980, p. 29)].  

A ação de política é necessária ainda em países como o Brasil, tendo em vista dois fatores principais. Primeiro, porque  

as situações de atraso vigentes nos países subdesenvolvidos se caracterizam pela ausência de elos centrais na estrutura produtiva e institucional, (o) que requer uma ação estruturante do Estado para induzir – ou mesmo assumir a responsabilidade direta via empresas estatais – a montagem de determinados setores na matriz produtiva, envolvendo uma ruptura radical das rotinas preexistentes [Erber (1992, p. 16-17)]. 

Em segundo lugar, e à semelhança dos países avançados, mostra-se necessário criar capacitações naquelas atividades essenciais para a existência da produção industrial. Erber enfatiza as atividades vinculadas à indústria de bens de capital [Erber (1977)] e do complexo eletrônico [Erber (1985)].

Erber sugere que no Brasil tal tipo de política poderia mobilizar muitas oportunidades se fosse mais priorizado. No entanto, já em 1984, discutindo a política de compras de empresas estatais, ele aponta que elas não se preocupavam com as inovações locais dos fornecedores: “Companies were only hired to replicate technologies developed by Cenpes or foreign companies” [Erber (1981, p. 12)]. Em um dos seus textos clássicos dos anos 1980, ele aponta que essa atitude era comum entre as empresas estatais brasileiras durante o período da industrialização baseada em substituição de importações, que demandava que seus fornecedores utilizassem tecnologias já testadas internacionalmente. Para ele, tal requisito

tenderia a gerar um círculo vicioso no qual seus fornecedores, tendo em vista não ter experiência prévia no ‘design’, eram forçados a utilizar o licenciamento e, por usar o licenciamento, não podiam desenvolver sua própria capacidade de projeto [Erber, Guimarães e Araujo Jr. (1984, p. 24)].  

Em trabalho produzido em 1999, Erber analisa a política tecnológica e de inovação implementada na América Latina na última década do milênio passado, ressaltando que um dos principais objetivos das políticas científicas e tecnológicas dos países da região passou a ser o aumento da participação privada no financiamento e na execução de atividades de ciência e tecnologia (C&T) sob a percepção de que a empresa privada deva ser o motor do desenvolvimento tecnológico. Ele aponta que:  

em verdade, este não é um objetivo novo – o Estado desenvolvimentista também o perseguiu com afinco. Seu fracasso sugere que existem causas estruturais para tanto. Entre estas destacam-se a composição da estrutura produtiva, em que os setores intensivos em tecnologia têm pequeno peso; a dominância da importação de tecnologia, fruto da gravitação de empresas internacionais e do tamanho reduzido das empresas nacionais; a configuração incompleta do mercado de capitais, onde faltam mecanismos de risco e a reduzida competição entre as empresas. Os reformistas dos anos noventa ignoraram a primeira, agravaram a segunda, não resolveram a terceira e concentraram-se na última causa [Erber (1999, p. 8-9)]. 

Tal constatação reforça mais uma vez a ideia, há muito estabelecida na América Latina, que as políticas implícitas são muito mais relevantes para as estratégias tecnológicas e de inovação empresariais do que as políticas especialmente desenhadas para a tecnologia e a inovação. Erber reiterava aqui o argumento que as políticas implícitas no Brasil não só não contribuem para a promoção do desenvolvimento tecnológico por parte das empresas, mas, ainda mais importante, tendem a inibi-lo e limitá-lo [Erber (1983)]. 

As conclusões que Erber deriva de sua análise são extremamente importantes e de uma relevância atemporal. O problema do desenvolvimento tecnológico nacional não pode ser resolvido apenas por um aumento das capacitações científicas e tecnológicas, nem pela política explícita de piência e tecnologia, que hoje em dia inclui também a de inovação [Erber (1983)]. Ele sempre destacava que os determinantes do fraco desempenho tecnológico relacionam-se às: 

considerações políticas e econômicas que guiam as ações das empresas e do Estado no que se refere às capacitações tecnológicas locais […] e ao papel das políticas explícitas de C&T […] (que) ao não convergirem com outras políticas, como a de capital estrangeiro, têm sua eficácia extremamente limitada [Erber (1983, p. 17-18)]. 

No Brasil, os diversos mecanismos de apoio à ciência, tecnologia e inovação desenhados têm sido ainda pouco utilizados pelo setor produtivo, o que tem levado alguns analistas a assinalar a existência de um “paradoxo da inovação”. Este resultaria do pressuposto de que as medidas de apoio ao desenvolvimento tecnológico no Brasil, apesar de bem desenhadas, não são bem-sucedidas especialmente em razão da falta de receptividade pelo setor produtivo. Como a impecável análise de Erber indica, o fracasso da política demonstra que, na falta de uma articulação com as políticas implícitas, esta tenderá a ser ineficaz ou nula. 

7. À guisa de Conclusão: a atualidade das ideias de FabioErber em um mundo marcado pela globalização financeira 

A implementação de políticas explícitas voltadas à inovação no Brasil já ocorre há anos, e alguns dos instrumentos, assim como algumas das formas de orientação das políticas, são bem antigos. Aqui se incluem desde o modelo de catch-up com os padrões de investimento privado em P&D, perseguido pela política nacional desde os anos 1970, até os apoios à articulação universidade-indústria, os quais já eram implementados pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) àquela época, atualmente Agência Brasileira de Inovação. Adicionam-se os estímulos para que empresas transnacionais intensifiquem seus esforços de P&D no país e internalizem suas estratégias de inovação. A lógica para essa ênfase reside maiormente na ideia de que a globalização leva as empresas transnacionais a descentralizarem suas atividades tecnológicas e o Brasil deve se aproveitar dessa situação. Sem dúvida, em um mundo interligado, é inegável que qualquer país deva se aproveitar das condições positivas trazidas pelo investimento estrangeiro. 

Os questionamentos quanto ao sucesso de tais políticas necessariamente remetem a questões levantadas por Fabio Erber já nos anos 1970 e 1980: qual é o papel dessas empresas na estratégia brasileira e no sistema nacional de inovação? Que tipo de desenvolvimento tecnológico elas se dispõem, de fato, a realizar fora de seu país de origem? Como a estratégia local das subsidiárias se insere em sua estratégia global? Que estratégias e políticas domésticas vêm sendo implementadas para garantir a ampliação e o enraizamento de capacitações produtivas e inovativas no país? Como são avaliados os resultados alcançados?14

A resposta a essas perguntas vincula-se a outra questão mais ampla, tendo em vista o avanço do processo de financeirização, que caracteriza a economia e a sociedade global nos últimos trinta anos: quais são as principais transformações experimentadas pelas empresas transnacionais que realizam atividades produtivas e inovativas? Aqui, um primeiro ponto refere-se ao atual papel das empresas transnacionais na economia. De acordo com a United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD), na década de 1990 havia 37 mil ETNs operando no mundo com 175 mil subsidiárias fora de seus países de origem. No fim de 2007, elas já eram 79 mil com um total de 790 mil filiais estrangeiras. UNCTAD (2011) estima que as ETNs em todo o mundo, tanto no país-sede quanto no exterior, geraram um valor adicionado de aproximadamente US$ 16 trilhões em 2010, representando mais de um quarto do PIB global.

Um segundo ponto relaciona-se à intensa reestruturação global das atividades produtivas que essas empresas promoveram, nos últimos trinta anos, redirecionando os fluxos globais de produção, investimento e comércio – processo que foi facilitado pela difusão do paradigma da microeletrônica e permitido pela onda de liberalização e desregulamentação. Autores como Aglietta e Rebérioux (2005) indicam que tais alterações estão associadas a transformações na organização do capitalismo em termos gerais e ao processo de financeirização da economia. Como as ETNs são em sua maioria sociedades de capital aberto, seu movimento de financeirização tem levado a uma crescente busca da valorização das ações, com impactos negativos nas atividades produtivas e tecnológicas.

Chesnais e Sauviat (2003) apontam que as instituições financeiras adquiriram um poder sem precedentes e ganharam o controle sobre as ETNs não financeiras, moldando seu padrão de investimento (incluindo P&D). De acordo com Vitali, Glattfelder e Battiston (2011), em 2011, 737 grandes empresas transnacionais detinham 80% do controle dos ativos das 43.060 maiores empresas mundiais. Esses autores adicionam que o controle dessas megaempresas se encontra nas mãos de um pequeno núcleo, aproximadamente uma centena de instituições financeiras. Grandes ETNs industriais tornaram-se, na realidade, centros financeiros com atividades industriais.

Por exemplo, em 2007, a divisão mais importante da General Electric relativa a receitas foi a GE Capital, seu braço financeiro (US$ 67 bilhões de um total de US$ 180 bilhões). A GE Capital foi responsável por 55% dos lucros totais da empresa e, se fosse um banco, seria um dos maiores dos Estados Unidos [Cassiolato et al. 2013]. O resultado é uma prioridade aos resultados de curto prazo em detrimento “de atividades de longo prazo, como pesquisa e desenvolvimento, renovação de fábricas e equipamentos, capacitação técnica da força de trabalho e cultivo de relações duradouras com os fornecedores” [Guttmann (2008, p. 13)].

As ETNs passaram a adquirir novos ativos científicos e tecnológicos de outras maneiras que não o desenvolvimento interno de P&D e a acumulação endógeno-corporativa de conhecimento [Chesnais e Sauviat (2003)]. As fusões e aquisições se tornaram uma maneira rápida e barata de se apropriar de possíveis desenvolvimentos tecnológicos gerados por empresas incipientes, que por sua escala têm pouco poder de mercado e limitado acesso a financiamento, o que acaba levando-as a ceder às pressões das grandes ETNs. Essa estratégia é muito menos custosa em relação a tempo e recursos, permitindo, ainda, uma maior distribuição de dividendos. Como parte dessa nova estratégia, os gastos internos em P&D para as grandes empresas transnacionais tornam-se muito menos importantes que as despesas nos demais ativos intangíveis direcionados à inovação.

Levando em conta o poder que exercem no comércio e na produção internacional e as complexas conexões pelas quais organizam indústrias e mercados globais, as ETNs representam uma centralização de ativos financeiros e uma “modalidade organizacional do capital financeiro” [Serfati (2010, p. 144)]. Sua principal vantagem competitiva reside na capacidade de construir um espaço integrado global, com operações financeiras e industriais realizadas de forma combinada com inúmeras filiais (produção, P&D, financeira etc.), coordenadas sob o controle de um escritório central que gerencia recursos e capacidades com o objetivo de dar coerência e eficiência ao processo de valorização do capital.

A inserção e o papel das ETNs nos países periféricos, em especial quanto ao desenvolvimento tecnológico local, são, portanto, afetados pela dinâmica da financeirização. Se nos países centrais ainda persistem os laboratórios e centros de pesquisa, nos países periféricos os esforços tecnológicos são quase exclusivamente adaptativos. Tais países são vistos como plataformas produtivas mais baratas e bons mercados para produtos já existentes. Novas tecnologias permitem que o processo produtivo seja fragmentado e espalhado ao redor do globo, a depender das condições favoráveis que cada país oferece. Amsden (2001) é uma das autoras que mostra que os investimentos de ETNs em países periféricos são modestos em montante e de baixa complexidade, quase nunca relativos a atividades de fronteira tecnológica.

Estudos detalhados sobre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul [Cassiolato et al. (2013); Reddy (2011)] sugerem que, mesmo nesses países, as atividades de P&D, realizadas por empresas transnacionais, são ainda marginais. Mesmo no caso da China, existem evidências de que as atividades tecnológicas das subsidiárias das ETNs são de intensidade relativamente baixa. Sun (2010) apresenta uma análise detalhada das atividades de P&D das subsidiárias de ETNs e conclui que a maior parte de P&D de empresas estrangeiras na China é de natureza adaptativa e de valor absoluto reduzido e que  

o governo chinês e as empresas locais não devem esperar benefícios significativos das atividades tecnológicas das subsidiárias de empresas transnacionais na China. Alternativamente devem focar na construção de capacitações tecnológicas endógenas: a maioria das empresas estrangeiras só vai investir em P&D quando sentirem a concorrência de empresas domésticas (p. 360). 

No Brasil, a dinâmica dos investimentos em desenvolvimento tecnológico segue necessariamente essa tendência global de transição de estratégia. Esperava-se que a abertura dos anos 1990 fosse motivar esforços inovativos e tecnológicos de firmas estrangeiras, contribuir para uma mudança estrutural e para reduzir o déficit comercial por meio do aumento das exportações. No entanto, os novos investimentos foram em grande parte market seeking, voltados para a exploração das oportunidades oferecidas pelo mercado interno (incluindo o Mercosul), e concentraram-se na aquisição de empresas locais, tendo se realizado muito pouco investimento novo. Assim, as transformações por que passam economia e sociedade globais a partir da crescente financeirização recolocam na agenda do desenvolvimento elementos já presentes nos debates realizados nos anos 1960 e 1970.

O ponto central que é mencionado por Erber quanto a essa questão reafirma a necessidade de inserir e articular a política de ciência, tecnologia e inovação na estratégia mais ampla de desenvolvimento. Um primeiro passo por ele apontado é efetuar uma demarcação clara entre padrão de desenvolvimento e padrão de industrialização [Erber (1992)]. Essa sua colocação é avançada em seus trabalhos mais recentes sobre convenções de desenvolvimento [Erber (2011)]. Ele explicita que, associada ao padrão de desenvolvimento, coloca-se uma política nacional, cuja implementação depende da existência de uma coalizão de forças sociais e condições políticas, institucionais e administrativas. À necessidade de uma política nacional de desenvolvimento, sem a qual a de inovação se torna inócua, somam-se outras, quanto à forma – sistêmica – e ao foco – priorizando atividades de caráter estruturante que ele denomina “motores da inovação”, os bens de capital, o complexo eletrônico, as TICs, as biotecnologias etc.:  

Do ponto de vista estrutural, é prioritário dar prosseguimento ao processo de implantação dos setores motores de inovação, tanto pelo papel que estes representam na dinâmica industrial moderna como pela sua precariedade no País. (Mais ainda) […] é desejável obter uma capacidade de inovação, devido aos seus efeitos econômicos, sociais e políticos. Ao mesmo tempo, maiores são as dificuldades para lograr essa capacidade, pela própria rapidez do progresso técnico, sua complexidade cognitiva, escalas crescentes de gastos mínimos e pelas restrições existentes à transferência internacional de conhecimentos, decorrentes tanto da operação do mercado de tecnologia como da estratégia de firmas internacionais [Erber (1992, p. 30-31)].  

Erber prossegue apontando o elemento central em sua tese: 

estabelece-se, a esse propósito, uma distinção crucial entre firmas sob controle nacional e estrangeiro, posto que é parte da lógica destas últimas utilizar as técnicas desenvolvidas nos países avançados, induzindo o mesmo comportamento em seus competidores nacionais. É ilusório imaginar que firmas multinacionais venham a desenvolver uma capacidade de inovação no País, mesmo que o Governo lhes conceda incentivos para tal, seja atuando isoladamente, seja em joint-ventures com firmas nacionais [Erber (1992, p. 31)].  

Em seus últimos trabalhos, em que aprofunda sua análise sobre desenvolvimento, Erber introduz o conceito de convenções de desenvolvimento, que “embora sejam sempre apresentadas como projetos nacionais que levam ao bem comum, refletem, na verdade a distribuição de poder econômico e político prevalecente na sociedade, num determinado período” [Erber (2011, p. 36)]. Para ele, a percepção do governo do Ex-Presidente Lula quanto à necessidade de uma mudança significativa na estratégia de desenvolvimento brasileiro “mais inclusiva do ponto de vista econômico e social, foi interpretada, no âmbito do Governo, de forma diferenciada, gerando duas convenções distintas” [Erber (2011, p. 37)].

Para uma dessas convenções mencionadas por Erber, a institucionalista restrita, de corte neoclássico e que tem uma visão de sociedade competitiva e meritocrática, “cuja eficiência seria garantida pelo funcionamento do mercado” [Erber (2011, p. 38)], a inovação, apesar de ser “vista como o motor do desenvolvimento, tem na abertura internacional um importante papel no seu estímulo através da importação de tecnologias mais produtivas” [Erber (2011, p. 39)].

Apesar de reconhecer a importância do Estado para o fomento da inovação, os adeptos dessa convenção têm “uma clara preferência pelo modelo principal agente, no qual o Governo fixa as diretrizes de política e os agentes executam tais diretrizes e prestam contas (ao governo) por sua execução” (p. 39).

A segunda das convenções, segundo Erber, é por ele chamada de neodesenvolvimentista, com clara inspiração keynesiana. Seus proponentes, por um lado, aceitam a política macroeconômica da convenção institucionalista restrita, mas, por outro, apontam a necessidade de um papel do Estado muito mais ativo. No caso dos investimentos em inovação, é proposta uma série de mecanismos tais como incentivos fiscais, crédito subsidiado e subvenções. Sua conclusão é que: 

a convivência entre as duas convenções se estabelece sob a hegemonia da convenção institucional restrita, assegurada pelo controle do tripé de políticas macroeconômicas […] A combinação entre as duas convenções atende a uma ampla gama de interesses, que a torna muito forte [Erber (2011, p. 51-52)]. 

É importante notar a discussão proposta por Fabio Erber sobre o suposto consenso a respeito da importância da inovação tecnológica, tanto na academia quanto em círculos governamentais, o qual contribuiu para tornar o tema um prestigioso símbolo de modernidade: 

se os conceitos tivessem analogias urbanas, a inovação poderia ser assemelhada a uma dessas praças em forma de estrela, como a De Gaulle em Paris e a Raul Soares em Belo Horizonte, as quais aportam avenidas vindas de diversos lugares, juntam-se e, a seguir, continuam seu percurso rumo a destinações divergentes [Erber (2009, p. 3)]. 

Diferentes concepções sobre inovação (as quatro avenidas, na analogia de Erber) levam a percepções sobre o papel dos atores do processo inovativo e proposições de política que são não só divergentes, mas, algumas vezes, antagônicas. Esta caracterização e as demais contribuições de Erber acima apontadas em muito ajudam a explicar por que a utilização ainda insuficiente por parte do setor privado dos inúmeros instrumentos de política de inovação, disponibilizados nos últimos 15 anos, longe de paradoxal, constitui-se em inevitável consequência de convenções de desenvolvimento questionáveis e visões, pelo menos parcialmente, equivocadas sobre a inovação. Acima de tudo, suas contribuições deixam clara a importância de entender em profundidade as transformações nas formas de geração e difusão das tecnologias, o papel dos diferentes atores e os espaços e limite das políticas públicas e privadas.

As contribuições de Erber a esse debate continuam válidas e merecem constituir objeto de reflexão maior, por parte tanto dos estudiosos do tema quanto dos planejadores, tomadores de decisão e implementadores de política. Cabe finalmente destacar que Fabio Erber propunha uma agenda positiva em uma nova convenção de desenvolvimento. No centro dessa agenda encontram-se sua constante ênfase à necessidade de aumentar o conteúdo tecnológico dos sistemas produtivos existentes e de mudar a estrutura industrial pela promoção das atividades motoras e transmissoras da inovação, como eletrônica e bens de capital. Se este último objetivo parece ainda distante, o primeiro tem se mostrado possível de ser atingido, na medida em que políticas de inclusão, emprego e renda e aumento de capacitações têm descortinado oportunidades para a criação e consolidação de diversos arranjos produtivos e inovativos locais no território nacional. Nestes podem se encontrar exemplos com força capaz de contribuir para uma agenda coesa e sustentável de desenvolvimento, tão necessária para o país.

Referências Bibliográficas

AGLIETTA, M.; REBÉRIOUX A. (2005) Dérives du capitalisme financier. , Paris: Bibliothèque Albin Michel Economie,

AMSDEN, A. H. (2001) The rise of the rest. , Nova York: Oxford University Press,

AROCENA, R.; SUTZ, J. (s.d.) Knowledge, innovation and learning: systems and policies in the North and in the South. , In: CASSIOLATO, J. E.; LASTRES, H. M.

M.; MACIEL, M. L. (Ed.). (2003) Systems of Innovation and Development – Evidence from Brazil. , Cheltenham, Reino Unido: Edward Elgar, p.291-310,

M.; MACIEL, M. L. (Ed.). (2005) Por un nuevo desarollo. , Madrid: CECIB,

BIELSCHOWSKY, R. (Org.). (2000) Cinqüenta anos de pensamento na CEPAL. , Rio de Janeiro: Record,

CASSIOLATO, J. (1992) The role of user-producer relations in innovation and diffusion of new technologies: lessons from Brazil. , Tese de Doutoramento – Universidade de Sussex, Reino Unido,

CASSIOLATO, J. (1999) A economia do conhecimento e as novas políticas industriais e tecnológicas., In: LASTRES, H.; ALBAGLI, S. (Org.). Informação e globalização na era do conhecimento. Rio de Janeiro: Campus, p. 164-190,

CASSIOLATO, J. et al. (2013) BRICS national systems of innovation: transnational corporations and local innovation., Nova Deli: Routledge,

CASSIOLATO, J. E.; LASTRES, H. M. M. (Ed.) (1999) Globalização e inovação localizada: experiências de sistemas locais no Mercosul., Brasília: IBICT,

CASSIOLATO, J. E.; LASTRES, H. M. M. (Ed.) (2005) Sistemas de Inovação e Desenvolvimento: as Implicações de Política. , São Paulo em Perspectiva, v. 19, n. 1, p. 34-45,

CASSIOLATO, J. E.; LASTRES, H. M. M.; MACIEL, M. L. (Ed.). (2003) Systems of innovation and development – evidence from Brazil. , Cheltenham, Reino Unido: Edward Elgar,

CHESNAIS, F.; SAUVIAT, C. (2003) The financing of innovation-related investment in the contemporary global finance-dominated accumulation regime. , In: CASSIOLATO, J. E.; LASTRES, H. M. M.; MACIEL, M. L. (Ed.). Systems of innovation and development – evidence from Brazil. Cheltenham, Reino Unido: Edward Elgar, p. 61-118,

CIMOLI, M.; KATZ, J (2003) Structural reforms, technological gaps and economic development: a Latin American perspective., Industrial and corporate change, v. 12, n. 2, p. 387-411,

COUTINHO, L. (2003) Macroeconomic regimes and business strategies: an alternative industrial policy for Brazil in the wake of the 21st Century. , In: CASSIOLATO, J. E.; LASTRES, H. M. M.; MACIEL, M. L. (Ed.). Systems of Innovation and Development – Evidence from Brazil. Cheltenham, Reino Unido: Edward Elgar, p. 311-328,

ERBER, F. (1972) Escolha de tecnologias, preços dos fatores de produção e dependência – uma contribuição ao debate., Pesquisa e Planejamento Econômico, Rio de Janeiro, v. 2, n. 1,

ERBER, F. (1977) Technological development and state intervention: a study of the Brazilian capital goods industry. , Tese (Doutorado) – University of Sussex, Reino Unido,

ERBER, F. (1979) Importação de tecnologia e dependência tecnológica. , Rumos para o Desenvolvimento, v. 3, n. 20,

ERBER, F. (1979) Política científica e tecnológica no Brasil: uma revisão da literatura., In: SAYAD, J. (Org.). Resenhas da Economia Brasileira. São Paulo: Anpec/ Saraiva, p. 5-62,

ERBER, F. (1980) Desenvolvimento tecnológico e intervenção do Estado: um confronto entre a experiência brasileira e a dos países centrais. , Revista de Administração Pública, v. 14, n. 4,

ERBER, F. (1981) Science and technology policy in Brazil: a review of the literature. , Latin American Research Review, v. 16, n. 1,

ERBER, F. (1983) Technological dependence and learning revisited. , Textos para Discussão, n. 34, Rio de Janeiro, UFRJ/IEI,

ERBER, F. (1985) The development of the "electronics complex" and government policies in Brazil. , World Development, v. 13, n. 3,

ERBER, F. (1992) Desenvolvimento industrial e tecnológico na década de 90: Uma nova política pra um novo padrão de desenvolvimento., Ensaios FEE, v. 13, n. 1,

ERBER, F. (1999) Perspectivas da América Latina em Ciência e Tecnologia. , In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA NO COMEÇO DO SÉCULO 21. Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, Brasília, 9 e 10 de dezembro,

ERBER, F. (2001) O padrão de desenvolvimento industrial e tecnológico e o futuro da indústria brasileira. , Revista de Economia Contemporânea, v. 5, p. 179-206,

ERBER, F. (2009) Innovation and the development convention in Brazil. , Revista Brasileira de Inovação, v. 3, n. 1, p. 35-54,

ERBER, F. (2011) As convenções de desenvolvimento no governo Lula: um ensaio de economia política. , Revista de Economia Política, v. 31, n. 1, p. 31-55,

ERBER, F.; ARAUJO JR., J. T.; ALVES, S. (1974) Absorção e criação de tecnologia na indústria de bens de capital., Rio de Janeiro: Finep,

ERBER, F.; CASSIOLATO, J. (1997) Política industrial: teoria e prática no Brasil e na OCDE, , Revista de Economia Política, v. 17, n. 2, p. 32-60, abr./jun.

ERBER, F.; GUIMARÃES, E.; ARAUJO JR., J. T. (1984) A política tecnológica da segunda metade dos anos oitenta., Texto para Discussão, n. 66, Rio de Janeiro, UFRJ/IEI,

ERBER, F.; GUIMARÃES, E.; FIGUEIREDO, M. H. (1974) Notas para um estudo sobre os fatores condicionantes da escolha de tecnologia. , Revista de Administração Pública, v. 7, n. 2,

FAJNZYLBER, F. (2000) Industrialização na América Latina: Da "caixa-preta" ao "conjunto vazio". , ". In: BIELSCHOWSKY, R. (Org.). Cinqüenta anos de pensamento na CEPAL. Chile: CEPAL, p. 853-886.

FAJNZYLBER, F. (1990) Industrialización en América Latina: de la"caja negra" al "casillero vacío": comparación de patrones contemporáneos de industrialización. , Cuadernos de la CEPAL, n. 60,.

FIORI, J. L. (2001) Sistema mundial: império e pauperização para retomar o pensamento crítico latino-americano., In: FIORI, J.; MEDEIROS, C. (Org.). Polarização mundial e crescimento. Rio de Janeiro: Editora Vozes, p. 39-76,

FREEMAN, C. (1987) Technology policy and economic performance – lessons from Japan., London: Frances Pinter,

FREEMAN, C. (1988) Diffusion: the spread of new technologies to firms, sectors and nations., In: HEERTJE, A. (Ed.). Innovation, technology and finance. Oxford: Basil Blackwell,

FREEMAN, C. (2004) Income inequality in changing techno-economic paradigms., In: REINERT, E. (Ed.). Globalization, economic development and inequality: an alternative perspective. London: Edward Elgar, p. 243-257.

FREEMAN, C.; PEREZ, C. (1988) Structural crisis of adjustment, business cycles and investment behavior. , In: DOSI, G. et al. (Ed.). Technical change and economic theory. Londres: Pinter, p. 38-66,

FURTADO, C. (1961) Desenvolvimento e subdesenvolvimento., Rio de Janeiro: Fundo de Cultura,

FURTADO, C. (1968) Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina. , Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,

FURTADO, C. (1974) O mito do desenvolvimento econômico. , São Paulo: Paz e Terra,

FURTADO, C. (1983) A crise da economia capitalista. , Revista de Economia Política, v. 3, n. 2, p. 5-13,

FURTADO, C. (2003) Raízes do subdesenvolvimento. , Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 89,

GUTTMANN, R. (2008) Uma introdução ao capitalismo dirigido pelas finanças, Revista Novos Estudos, Cebrap, n. 82, p. 11-33, nov.

HANSON, P.; PAVITT, K. (1987) The Comparative Economics of Research, Development and Innovation in East and West: a Survey. , London,

HERRERA, A. (1975) Los determinantes sociales de la política científica en América Latina. Política científica explícita y política científica implícita., In: SÁBATO, J. (Ed.). El Pensamiento Latinoamericano en la Problemática CienciaTecnología-Desarrollo-Dependencia. Buenos Aires: Paidos, p. 151-170,

KATZ, J. (1987) Technology generation in Latin American manufacturing industries: theory and case-studies concerning its nature, magnitude and consequences. , Londres: Macmillan,

LASTRES, H. (1994) The advanced materials revolution and the Japanese system of innovation. , Londres: MacMillan,

LASTRES, H. (2004) Indicadores da era do conhecimento: pautando novas políticas na América Latina., In: SEXTO TALLER DE INDICADORES DE CIENCIA Y TECNOLOGÍA IBEROAMERICANO E INTERAMERICANO: MEDIR EL CONOCIMIENTO PARA LA TRANSFORMACIÓN SOCIAL. Universidad de Belgrano, Buenos Aires, 15 al 17 de septiembre de 2004. RICYT, v. 15,

LASTRES, H.; CASSIOLATO, J.; ARROIO, A. (Eds.). (2005) Conhecimento, sistemas de inovação e desenvolvimento. , Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ/Ed. Contraponto,

LASTRES, H. M. M. et al. (2012) A nova geração de políticas de desenvolvimento produtivo: sustentabilidade social e ambiental., Brasília: Editora da CNI,

LUNDVALL, B. Å. (1994) The learning economy: challenges to economic theory and policy., In: EAEPE CONFERENCE. Copenhagen, out.

MONTALBAN, M. (2009) L’ influence de la financiarisation sur les modèles productifs dans l’industrie pharmaceutique: domination et contradictions de la conception du contrôle blockbuster., Cahier n. 2009-01, GRES, Université Montesquieu-Bordeaux IV and l’Université des Sciences Sociales Toulouse I, França,

PRADO, L. (2011) Fabio Erber: o economista e suas circunstâncias., Revista de Economia Contemporânea, v. 15, n. 1, p. 198-215,

PREBISCH, R. (2000) O desenvolvimento econômico da América Latina e alguns de seus problemas principais. 1949. , In: BIELSCHOWSKY, R. (Org.). Cinqüenta anos de pensamento na CEPAL. Rio de Janeiro: Record, p. 70-136,

REDDY, P. (2011) Global innovation in emerging economies. , Oxford: Routledge,

SAGASTI, F. (1978) Science and technology for development: main comparative report of the Science and Technology Policy Instruments Project. , Ottawa, IDRC,

SCERRI, M.; LASTRES, H. M. M. (2013) The state and the architecture of national systems of innovation. , In: SCERRI, M.; LASTRES, H. M. M. (Ed.). BRICS national system of innovation: the role of the state. New Delhi: Routledge, p. 1-23,

SERFATI, C. (2008) Financial dimensions of transnational corporations, global value chain and technological innovation. , Journal of Innovation Economics, v. 2,

SERFATI, C. (2010) Transnational corporations as financial groups. Draft paper., In: 2010 CONFERENCE OF THE EUROPEAN ASSOCIATION FOR EVOLUTIONARY POLITICAL ECONOMY. University of Montesquieu Bordeaux IV, Oct. 2010, 28-30. Disponível em: . Acesso em: 24 abr. 2013.

SUN, Y. (2010) Foreign research and development in China: a sectoral approach. , International Journal of Technology Management, v. 51, n. 2/3/4,

TAVARES, M. (1972) Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. , Rio de Janeiro: Zahar,

TAVARES, M.; SERRA, J. (1973) Beyond stagnation: a discussion on the nature of recent development in Brazil., In: PETRAS, J. (Ed.). Latin America: From dependence to revolution. Nova York: John Wiley, p. 61-99,

UNCTAD − UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOPMENT. (2011) World investment report 2011: new equity modes of international production and development. , Genebra: United Nations,

VERMULM, R.; ERBER, F. (2002) Estudo da competitividade de cadeias integradas no Brasil: impactos das zonas de livre comércio. , Cadeia bens de capital. Nota Técnica. Campinas: Unicamp,

VITALI, S.; GLATTFELDER, J. B.; BATTISTON, S. (2011) The network of global corporate Control. , PLoS ONE, 6 (10): e25995. doi:10.1371/journal.pone.0025995.

Algumas lembranças de Fabio Erber

"INGEGNERI!", "ECONOMISTE!"

Era assim, com entonação irreverente e carinhosa, que nos saudávamos todas as vezes que nos encontramos nos últimos trinta anos, até mesmo em ocasiões de ambiente mais formal.

ver também Algumas lembranças de Fabio Erber

Algumas lembranças de Fabio Erber

Ricardo A. C. Saur, Estratégias de desenvolvimento, política industrial e inovação: ensaios em memória de Fabio Erber / Organizadores: Dulce Monteiro Filha, Luiz Carlos Delorme Prado, Helena M. M. Lastres. – Rio de Janeiro : BNDES, 2014.

The article does not intend to be an academic analysis of Fabio Erber’s work, but simple comments on his contribution to many aspects of Industrial Policy in Brazil, often underrated. It tries to recall one of the fields he has played a role, as usual with the discretion that characterized him. Much before Information Technology & Communication became a cultural commodity, Erber could see the importance of "Informatics" (as ITC was referred then) in the task of modernizing Brazil, and helped initiatives with his wise counsel and direct intra-government support. His modesty, discretion and commitment left a deep mark on those who had the privilege of working and learning together.

“INGEGNERI!”, “ECONOMISTE!”

Era assim, com entonação irreverente e carinhosa, que nos saudávamos todas as vezes que nos encontramos nos últimos trinta anos, até mesmo em ocasiões de ambiente mais formal.

Fabio e eu tínhamos um aspecto comum muito forte, que, além de uma duradoura amizade, nos unia mesmo nas raríssimas ocasiões em que discordávamos de alguma coisa: tínhamos nos conhecido por intermédio do saudoso José Pelúcio Ferreira, um de nossos maiores e mais expressivos gurus capazes de influenciar o pensamento de toda uma geração de jovens ávidos por desenvolvimento com justiça social. Tenho certeza de que muitas das qualidades que Fabio possuía foram muito influenciadas pelas conversas lapidadoras de Pelúcio, sempre eivadas de bom humor e total desprezo pela vaidade.

Não é à toa que os chineses ensinaram que crise e oportunidade andam juntas. Fabio começou em particular a nos ajudar com sua inteligência e perspicácia em uma ocasião de crise. Após o “choque do petróleo” na década de 1970, o país teve que adotar severas medidas de controle de importações e, sem pedir nem querer, vi-me de repente em uma inusitada posição de muita responsabilidade além de provocadora de enorme antipatia.

A Comissão de Coordenação das Atividades de Processamento Eletrônico (Capre), até então voltada inteiramente para racionalizar a compra e o uso de computadores no governo, foi convocada para a missão de examinar pedidos de importação de computadores, suas peças e periféricos, autorizando ou negando sua importação. É que essas importações estavam crescendo muito e já eram o terceiro maior item na pauta de bens. Um teto anual foi fixado para as autorizações (bem abaixo da demanda projetada) e, ao examinar esses pedidos, devíamos dizer “não” a aproximadamente 70% deles. Isso naturalmente ensejou uma tremenda pressão que só poderia ser atendida criando-se algum filtro técnico para examinar a real necessidade da importação, com um mínimo de erros, e estabelecer um grau de prioridades setoriais.

Fabio Erber ajudou-nos muito no Ministério do Planejamento durante todo esse período inicial e continuou atuando silenciosa e discretamente como um bom conselheiro informal durante os próximos anos.

Esse período (anos 1970) coincide com a compra, pela Marinha do Brasil, de modernas fragatas inglesas, que inauguravam uma nova geração tecnológica ao fazer uso intensivo de computadores para navegação e ataque. Os novos mísseis, como o Exocet, eram então disparados não mais por uma ordem da ponte de comando, mas por um comandante de tiro trancado em uma sala sem janelas, apinhada de telas de radar e várias engenhocas, tudo baseado em computadores. Na expressão de um almirante da ocasião, “sem os computadores, essas fragatas tornam-se meras caravelas”.

A Marinha de pronto enxergou a necessidade de “abrir essas caixas–pretas” e estabeleceu alguns programas de desenvolvimento, enviando oficiais ao exterior e preparando uma nova geração de comandantes capazes de entender esse novo patamar tecnológico que tornava obsoletas várias doutrinas e processos. Um desses programas foi acertado com o BNDE (ainda sem o S) por meio do Fundo de Desenvolvimento Técnico-Científico (Funtec, atual BNDES Fundo Tecnológico), destinado em sua versão oficial a projetar e fabricar um computador com tecnologia brasileira – mas, na realidade, mais preocupado em desenvolver uma base de engenharia e conhecimento dessas novas máquinas, buscando aproveitar o quase nada existente em nossa indústria eletrônica. Havia também um ambiente acadêmico estimulante, encontrado nos laboratórios de pós-graduação de algumas universidades pelo retorno de uma grande leva de gente que foi buscar seus mestrados e doutorados no exterior, mas nada se encontrava como um laboratório preocupado em conectar-se com nosso desenvolvimento industrial (como é antigo esse cansativo refrão de aproximar a academia e a indústria, nunca de fato estabelecido como política de Estado no Brasil).

Com o poderoso patrocínio do presidente do BNDE, Marcos Vianna, e a inestimável ajuda do grupo de Pelúcio e Fabio, foi possível montar com a Marinha um programa sério que conseguiu ao final produzir não só um modelo de computador que computava, mas principalmente uma nova linhagem de engenheiros e técnicos que uniram uma sólida base tecnológica dada pela academia a uma série de iniciativas que hoje seriam imediatamente rotuladas de “inovadoras e empreendedoras”. 

As discussões sobre Política Industrial que se desenvolviam no âmbito da agora poderosa Secretaria de Planejamento da Presidência da República, tendo à frente o Ministro João Paulo dos Reis Velloso, além de ensejarem vários programas de sucesso, criaram um ambiente favorável a novas ideias. Aos assessores diretos do ministro somavam-se o Presidente do BNDE, o Secretário-Geral Élcio Costa Couto, e naturalmente Pelúcio e Fabio. Um dos modelos mais estudados foi o adotado na França, conhecido como “Plan Calcul”, que serviu para que a informática (termo que substituiu definitivamente “processamento de dados”) fosse vista de forma mais estratégica, em um certo longínquo prenúncio do que anos mais tarde seria o advento da sociedade da informação.

A adoção de medidas de estímulo e proteção ao que se desejava fosse a indústria nascente de informática no Brasil, que foi tratada pela mídia como “reserva de mercado para computadores”, provoca até hoje discussões – no mais das vezes despidas de informação e dados reais e cheias de afirmações bombásticas sem base (como “nos atrasamos vinte anos”).

Fabio Erber sempre nos questionava sobre esses temas, cobrando os “porquês” dos fracassos e sucessos e, apesar de sempre disposto a dar seu apoio, mantinha uma admirável capacidade de se despir do discurso oficial e questionar, às vezes duramente, o caminho que estávamos seguindo. Mas, uma vez convencido pelos dados e argumentos, não se furtava a assumir posições contra ou a favor e, nesse caso, apesar de um certo ceticismo quase profético quanto à capacidade do governo pós-Geisel de dar continuidade à iniciativa, ele a apoiou quando enxergou suas consequências estratégicas.

A intervenção militar no novo setor com a criação da Secretaria Especial de Informática (SEI) misturou boas intenções com carreirismo e muito autoritarismo, trazendo disputas internas de poder entre os “coronéis do Figueiredo”, e o surgimento dos eternos “amigos do rei” que, nessas horas, enxergam possibilidades de “morder seu pedaço”. Mas isso é outra história que ainda precisa ser recontada.

Em uma coisa a “reserva de mercado” acertou em cheio: ela conseguiu abrir uma das caixas-pretas mais importantes da indústria de computadores, o software de sistemas operacionais. Hoje, todo garoto sabe o que significa software e todos os milhões de usuários dos PCs e Macs já ouviram falar de sua respectiva “plataforma” ou sistema operacional (ou “Windows” é um termo só para veteranos?). No início da computação, a ênfase pública era toda para o hardware, e o software era visto quase como algo secundário. Mas, tão logo começamos realmente a tomar conhecimento dessas novas tecnologias, a verdadeira importância do software ficou evidente.

Ao fim dos governos militares, apesar das intervenções e desperdícios de oportunidades trazidos pelo autoritarismo, constatou-se que aqui havia sido desenvolvido código de sistema operacional da melhor qualidade (Sisne, Sox) e que o nível de prática e ensino de programação estava par a par com os centros mais desenvolvidos (Estados Unidos, Japão, França e Inglaterra) e até à frente de vários países que não tinham essa expertise.

A noção de que realmente aprendemos a desenvolver software básico firmou-se com as acusações de empresas, como Microsoft e Data General, de que o software que havia nos produtos existentes, ou a serem lançados aqui, era cópia pirateada. Isso foi refutado de forma inequívoca, entre outras, pela estatal Cobra Computadores e pela empresa privada Scopus, até mesmo comparando-se trechos de código. Essa intensa pressão norte-americana ainda foi contida durante o governo Sarney pela atuação de pessoas como Renato Archer e Luciano Coutinho, mas, logo em seu início, o governo Collor cedeu de forma oportunística e acabou com a proteção à emergente indústria de informática no Brasil, que rapidamente desnacionalizou-se e quase desapareceu.

Foi esse tópico que me proporcionou novo e agradável encontro muitos anos mais tarde, quando Fabio era diretor do BNDES na gestão Lessa. 

Ao fim dos anos 1990, com a ideia de tornar o Brasil um exportador de software, foi estabelecida uma meta de exportar um milhão de dólares na virada do milênio, e criada a Softex com seu nome original (Sociedade para Fomento da Exportação de Software). Acreditava-se muito em produtos de software, conhecidos como software de pacotes, a serem comercializados por venda de cópias (exatamente como hoje se compra um aplicativo para seu tablet ou smartphone). Esse conceito era correto do ponto de vista técnico, pois tínhamos condições de competir com alta qualidade no desenvolvimento dos códigos para atingir o pacote-produto com um custo adequado. O problema é que, não havendo ainda a internet, os canais de comercialização eram semelhantes a supermercados, dependentes de marcas e de espaço em prateleiras. E aí se revelou nossa grande falta: não tínhamos marcas nem acesso às redes distribuidoras, nem experiência de penetração comercial para vender software-produto diretamente um a um ou mesmo por revendedores. Um dos melhores exemplos foi o caso dos programas de processamento de texto: os mais velhos recordam-se bem da qualidade do CartaCerta e do Redator, softwares totalmente desenvolvidos aqui e que foram esmagados pelos importados da época, mesmo de qualidade inferior.

O resultado desse esforço foi triste: na virada de 2000, não conseguimos nem um quarto da meta estipulada, e criou-se um clima negativo e desencorajador para exportar software.

Nessa mesma época – fim dos anos 1990 –, apareceu o famigerado “bug do milênio”. Até então, as milhares de linhas de código produzidas mundo afora utilizavam apenas dois dígitos para registrar o ano nos programas desenvolvidos. Inúmeros desses programas embutiam tarefas que tomavam decisões comparando dois anos e, com a virada do milênio, isso ficaria totalmente fora de controle ao fazer o computador pensar que o ano 2000 era antes de 1999… A imprensa ajudou muito a disseminar um medo de catástrofes, criando enorme pressão para algo ser feito com prioridade.

O resultado foi um certo pânico para correr contra o relógio e reprogramar todos os programas que fossem atingidos por tal bug, passando a utilizar quatro dígitos para codificar anos. Era uma tarefa repetitiva, de pouca lógica ou complexidade, mas muito, muito extensa. Além disso, era temporária – ninguém queria contratar mais programadores para ter que dispensar logo depois, nem parar seus desenvolvimentos deslocando a mão de obra internamente disponível. Resultado: essa demanda caiu como uma luva para as empresas indianas que constituíram “fábricas de software” imediatamente se movimentarem e explodirem em crescimento e lucros, criando o que se denominou de off-shore outsourcing, e um mito de eficiência e preços baratos. A erradicação do bug do milênio enquadrava-se favoravelmente até na diferença de fuso horário entre Mumbai e Nova York e na obediência cega dos codificadores que adotavam a mesma prática cultural de seus mantras.

No Brasil, em muito menor escala, ocorreu algo semelhante. Surgiram algumas novas e agressivas desenvolvedoras de software na esteira do bug, que se distinguiam exatamente por fugir dos “pacotes” e oferecer serviços de software na modalidade de fábrica. Somando-se a acelerada penetração da informática em todos os setores da economia, criou-se uma nova concepção para o que seria o futuro da indústria brasileira de software: uma oferta de serviços correlacionados ao software, porém, mais abrangente, capaz de tornar o uso da informática pelas empresas algo que vem somado a serviços administrativos ou de relacionamento com o público.

Nos primeiros anos do novo século, algumas das empresas nacionais que souberam aproveitar a onda do bug do milênio se interessaram em conhecer mais de perto o sucesso do modelo indiano e criaram uma associação no começo focada exclusivamente em fomentar a exportação de software e serviços correlatos. A criação da Brasscom foi uma construção delicada no início, pois estavam sendo convidados para colaborar dirigentes de empresas que competiam ferozmente no mercado nacional e que, naturalmente, se viam muito mais como “inimigos” que como “colegas no mesmo barco”. Tive o privilégio de colaborar intensamente nessa construção e conseguir que as desconfianças iniciais fossem superadas, permitindo conduzir, como primeira iniciativa, um convênio com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), atualmente Agência Brasileira de Inovação, destinado a contratar, muito analogamente ao que fizeram os indianos, uma consultoria internacional de renome que produzisse um plano de ação conjunto governo federal-empresas privadas nacionais para conquistar uma parcela do mercado exterior nos próximos anos. 

Antes mesmo de essa questão terminar, como considerava a participação do BNDES imprescindível para tornar realidade qualquer plano que viesse a ser proposto, fui procurar Fabio Erber no Banco e propor uma conversa sobre o assunto. Com sua habitual franqueza, ele achou até graça e bem-humoradamente disse que não acreditava naquilo, que não via meios de competirmos com os indianos. Mas talvez pelos créditos de amizade e respeito profissional acumulados durante muitos anos, concordou em almoçar e ouvir.

Mostrei-lhe um paper inicial que havia sido elaborado por ocasião da fundação da Brasscom, já com alguns dados do mercado internacional e a penetração indiana respectiva e falei da experiência dos dirigentes nacionais que já estavam ligados na iniciativa, haviam visitado a Índia e estavam confiantes de que poderíamos ter um lugar nesse crescente mercado internacional. Como eu estava realmente entusiasmado pelo assunto, Fabio acabou por proporcionar uma chance de mudar de ideia, pelo método tradicional do Banco quando há um assunto novo e/ou controvertido: reuniões com técnicos de diversas especialidades do quadro do BNDES, nas quais, após uma apresentação, era feita uma verdadeira sessão inquisitória.

O resultado espelhou muito sua personalidade e seu comportamento: uma vez convencido da validade da iniciativa (sem precipitar-se e mantendo suas reservas de dúvidas a serem exploradas a seguir), Fabio passou a apoiar inicialmente uma investigação mais profunda e, com os resultados positivos, a ideia propriamente dita de tornar o Brasil um exportador de software e serviços correlatos.

Por seu intermédio, a Brasscom foi logo recebida pelo presidente Carlos Lessa, que, apesar de mostrar-se muito cético quanto ao sucesso, admitiu a validade da iniciativa e, a partir daí, o Banco sempre esteve presente e ajudou no desenvolvimento desse segmento.

Fabio poderia ter tido o comportamento tecnocrata de descartar algo que era naturalmente novo, arriscado e desafiador. Mas, suas convicções de Política Industrial, que tanto ajudaram o BNDES a retomar seu caminho após os excessos da época anterior, em que Política Industrial era um palavrão no governo e alguns dirigentes só sabiam falar em privatização, somaram-se sua curiosidade de pesquisador e cientista social que acabavam por dizer “me mostre” para só depois formar sua opinião executiva.

O Brasil é hoje um importante player no mercado internacional de outsourcing de software e serviços correlatos e muito se deve ao apoio dado pelo Banco, que, como outras decisões de Políticas com P maiúsculo, teve uma importante (e como sempre discreta) contribuição do economiste Fabio Stefano Erber.

Mas esta foi apenas uma, e das mais modestas, ainda que tão importante, das magníficas contribuições deixadas pela inesquecível figura do economiste Fabio Stefano Erber.

Pensando e implementando políticas: a contribuição...

1. Introdução

Fabio Erber era um homem que, como diria Kant, "ousava conhecer!"1 "Tinha a coragem de usar o seu próprio entendimento",2

ver também Pensando e implementando políticas: a contribuição...