Dia do Enterro

Já acordara indisposto. Talvez fosse o próprio dia – o calor úmido, que o abraçava quando saía do ar condicionado. Saudades do frio seco das manhãs de inverno no Norte ! Praga de trópico !

Depois, ao fazer as flexões matinais, sentira um crec nos músculos do peito. Ao barbear-se, tentara não ver sob os olhos as bolsas reveladoras e acabara dando um corte no pescoço. Minúsculo, mas ardia como o envelhecimento. E o estiramento doía.

Concluído o breakfast (que também chamava de desjejum) e, tendo ido ao banheiro (orgulhava-se de sua regularidade), sentara-se para escrever. E  empacara.

Normalmente, fazia discursos com gosto e facilidade. Os de paraninfo, eram os melhores: permitiam esclarecer os jovens, falar da responsabilidade profissional, do futuro e do progresso da Ciência. Uma pitada de humor aqui, uma bela alusão literária lá, era um festa. Infelizmente, já havia tempo que não tinha a oportunidade.

Mas, em tempos normais, uma oração fúnebre tinha seus atrativos. Permitia colocar a voz em seu registro grave e recuperar o saber dos antigos mestres; dar uma bela demonstração de erudição acadêmica. Friedrich, o recém falecido, uma dia lhe recomendara : “nada da banal, como citar Keynes, ou mesmo Smith, mas alguém como Montifort Longfield ou Bruce Springsteen, que, além de tudo, têm nomes sonoros  e permitem caprichar na pronuncia oxfordiana”. Por curiosidade, fora verificar. Longfield fora um dos precursores do marginalismo, mas  não achara referencia a Springsteen. Friedrich esclarecera que era um autor menor, de pouca relevância. Ao passar por uma loja de discos, vira um cartaz de um cantor de rock com o mesmo nome. Nunca mencionara o fato a Friedrich.

Tinha uma boa técnica: começar por uma citação literária, que atraísse a atenção da platéia. O diabo era que só lhe vinha à cabeça o discurso de Antônio: “Friends, Romans, countrymen, lend me your ears; I come to bury Caesar, not to praise him”. Definitivamente, não servia. Ao contrário, estava ali exatamente para elogiar o defunto.

O problema talvez fosse ele, o defunto. Com o finado Professor Friedrich von Kraut, jamais se sentira à vontade. Pequeno, careca, barrigudo, narigudo, voz estridente, com uma ampla barba grisalha, Friedrich parecia um gnomo perdido na academia. Quando iam juntos, o contraste não podia ser maior e, tinha a impressão, quanto mais formal o evento, mais desmazelado estava o colega.  Shakespeare era-lhe inadequado. Pelo menos o Shakespeare de que gostava, das frases rotundas, que ecoavam na audiência.

Quando o conhecera, perguntara-lhe, com alguma trepidação, se o von do nome correspondia a algum titulo de nobreza. Friedrich confirmara, mas, depois, esclarecera:

– Tive um bisavô que era um judeu rico, comerciante de alimentos, que queria ser nobre. Venderam-lhe o titulo mas impuseram-lhe o nome. A família perdeu o dinheiro, mas ficou com o nome.

Em busca de inspiração, tentou recordar-lhe a carreira. A secretária preparara-lhe um currículo resumido, mas, suspeitava, o completo seria pouco maior. Fizera seu doutorado na Alemanha, naquele sistema que ninguém entendia bem, tão diferente do americano e do inglês. A tese fora sobre abstrusos aspectos da teoria do valor de Marx – tema que não o inspirava e, alem de tudo, estava irremediavelmente passé. Com fama de brilhante, ao voltar da Alemanha haviam lhe arranjado um concurso para Titular. Candidato único, fora aprovado.

Passara o resto da carreira aprofundando os temas da tese, que eram vastos. Escrevia pouco, laboriosamente, mas eram trabalhos de peso, profundíssimos, ao que diziam.

Nunca os lera, mas lembrou-se, com desgosto, de uma noite, durante um congresso.  Friedrich já havia tomado muitas – hábito que, parecia, viera aumentando com o tempo. Perguntara-lhe por que não escrevia seus papers em inglês, a língua franca da academia. Talvez porque o alemão fosse-lhe mais fácil, aventurara.

“Não”, respondera o gnomo. Dera uma risada, junto com uma baforada mista de bebida e charuto (outro hábito detestável). Puxara-o para baixo e segredara:

– Vou lhe contar um mistério do oficio, caro Otacílio. Mas prometa não passar adiante, senão vulgariza e deixa de ser mistério. Meu alemão é tão ruim quanto meu inglês. Mas tem duas vantagens: a primeira, é que pouca gente lê; a segunda, é que menos ainda entende.

Outras vezes, porem, dizia não saber inglês. Quando seu último livro fora publicado e estava mostrando-o aos colegas na Sala dos Professores, Friedrich propusera “transformar o nosso emérito Otacílio em instituição de utilidade publica, pois, ao ler seus livros, poupamo-nos da necessidade terrível de ler o que se publica nos Estados Unidos”.

De toda forma, a lista de publicações do Professor Friedrich von Kraut era exígua. Além de artigos no referido alemão, cujo número reduzido era em parte compensado pela extensão dos títulos, havia três livros – coletâneas de artigos alheios, sempre precedidos de uma introdução do Professor, que os situava em seu contexto histórico e analítico. Destes, um era em português. Ao folheá-lo, em busca de um gancho para o discurso, teve que reconhecer-lhe a competência literária, mas chocou-se com o sarcasmo que minava das paginas, dirigido, inclusive aos autores coletados.

Se não fora um autor, digamos, prolífico, era, sem duvida, um professor querido. Mesmo sendo Titular, gostava de dar cursos introdutórios, o que servia para intimidar jovens professores que só queriam ensinar na pós-graduação. Era-lhe grato por isso e, feliz, fez a primeira anotação para o discurso. Os alunos também pareciam gostar dele, mas tinha dúvidas quanto aos motivos. Embora fosse um expositor claro (por vezes cortante), nem todas as razões pareciam ser de boa cepa acadêmica.    Lembrava-se bem que o colega, nos últimos anos, voluntariara-se para lecionar em cursos na Faculdade de Psicologia. Explicara que o horário vespertino convinha às suas noites e havia mais alunas e mais bonitas.

Apesar de tudo, ou talvez por causa de tudo  (hoje estava meio confuso -devia ser o calor; e a dor no peito),  Friedrich von Kraut morrera Professor Titular e havia que homenageá-lo. E a ele, Diretor da Faculdade, incumbia a missão.

Era o primeiro Titular que morria, desde que se tornara Diretor, mas havia planejado bem a cerimônia : toda a Congregação, de toga, em volta do túmulo, junto com os familiares e amigos, enquanto ele fazia a oração fúnebre. Mais tarde, quando fizessem a próxima reunião da Congregação, guardariam um minuto de silêncio em homenagem ao colega passado. Ocorrera-lhe de dar o nome de Friedrich a uma das salas, mas agora, revendo-lhe o currículo, parecia um exagero. Também um desperdício. Havia poucas salas e muitos Titulares e a maioria seguia linhas de trabalho mais atuais e corretas – acadêmica e políticamente.

Não tinha dúvidas que a Congregação compareceria. Seja porque gostassem de Friedrich seja porque respeitassem o Diretor e a liturgia acadêmica. Comovia-se ao pensar na liturgia. Oxford, era o paradigma.  High tea e togas. Usara todo seu poder político, apoiado pelo Reitor – seu primo e colega de partido – para que as reuniões das Congregações fossem feitas de toga. A Universidade tinha que valorizar-se e o estilo era substantivo. Sabia que os professores mais jovens resistiam, mas não importava. Haveriam de ficar mais velhos e entender.

Friedrich, nisso, o apoiara. E fora além: propusera que rezassem antes das reuniões. Em latim. Como a Universidade era pública, não o secundara, embora, pessoalmente, achasse a idéia atraente.

A família também estaria a beira do túmulo. Aí, deu-se conta de que, de certa forma, o dia do enterro começara ontem à noite. Fora ao hospital, onde Friedrich estava recolhido. Como ia, depois, a uma recepção, fora de smoking. Apesar do calor, gostava de vesti-lo. Encontrou-o num quartinho apertado. A morte dera-lhe uma aparência ainda mais desmazelada.

Havia uma mulher no quarto. Magra, cabelos muito pretos, alta, com os olhos cercados de negro, fumava, olhando fixo para o cadáver. Quando ele entrou e se apresentou, olhou-o fixo, de cima a baixo, em silêncio, por algum tempo, e depois perguntou:

–  Vai a algum baile ?

Contrafeito, explicou quem era e o que planejava para o enterro. Não pareceu se interessar. Apontou para o morto e disse:

– Era um bom filho da puta. Gostava muito dele. Morreu como gostaria. Rápido e depois de uma farra.

Virou-se e estendeu a mão, súbitamente formal :

– Meu nome é Ingrid. Era meu tio.

Aparentemente, a única parente. Ele voltou a explicar o enterro. Desta vez, ela o ouviu e comentou:

–  Parece ótimo. Pena que ele não possa ver. Iria se divertir muito.

Renovando os pêsames, apressou-se em sair. Mas, quando estava na porta, ela acrescentou:

– Deixe o endereço do baile. Se der, eu vou.

Tinha a mesma gargalhada de Friedrich.

Não esperou o elevador, desceu as escadas correndo. Na recepção, em homenagem ao Grão Mestre da Ordem de Malta, tomara uísque demais. E, agora, estava indisposto.

Suspirou, pensando na sobrinha de Friedrich. E descobriu-se desejando que o morto fosse o Alencastro, membro de ilustre família. Haveria muita gente e, certamente, a imprensa e até a televisão.

Culpado, levantou-se. Maldito Friedrich ! O que iria dizer ? Dali a pouco era o enterro e não havia escrito uma linha.

Para relaxar, resolveu arrumar-se. Pôs um terno preto, com camisa branca e club-tie, das mais escuras. Sapatos e meias pretos. Por cima de tudo, vestiu a toga, solene. Conferiu o resultado no espelho, minuciosamente, e, satisfeito, apesar do calor, concluiu que um uísque talvez o ajudasse.

Era um daqueles dias. Esquecera da empregada nova. Ao vê-lo entrar na sala, deu um grito e largou o Gallé que estava limpando. A imbecil teve que sentar-se, com uma crise de soluços histéricos, e só se acalmou depois que tomou água com açúcar. No meio das desculpas, enquanto catava os cacos do Gallé, olhou-o novamente e teve um frouxo de riso. Decidiu despedi-la. Mas não agora. Precisava acabar o discurso. Tremendo, serviu-se do uísque. Puro malte, dose dupla. E engasgou-se.

Sufocando, ouviu o telefone. Fez sinal para a empregada que não atendesse – a alta tecnologia se encarregaria daquilo. Era sua secretária, pessoa, que informava à eletrônica que o carro lá estaria em quinze minutos, para levá-lo ao enterro do Professor Friedrich von Kraut. O carro, com respectivo motorista, era outra de suas conquistas junto a Reitoria, mas, agora, não havia tempo para congratular-se. Já era a hora do enterro e não havia feito o discurso.

Afobado, voltou para o escritório. Olhou para a tela escura do computador, para a página em branco, para a mente também em branco. Controlou-se. Detestava improvisos, mas situações in extremis demandavam soluções também extremadas.

Lembrou-se, então, de uma conferência que fizera um ano antes, na Associação dos Ex-Alunos de Oxford. Era sobre “Economia e Sociedade”, geral o bastante para caber em qualquer lugar. E, no fim das contas, Friedrich fora um economista, preocupado, supunha-se, com a sociedade.

Felizmente, guardava copias em duplicata de tudo que escrevia – uma em casa e outra na Universidade. Felicitando-se pela sua preciência, achou o discurso numa pasta. No carro, faria as adaptações necessárias. A batida na porta anunciou a chegada do motorista.

Ao sair, o calor oprimiu-o. O céu mal se aguentava. O ar condicionado do carro reconfortou-o, mas não conseguia se concentrar na leitura. Vinha-lhe a memória a risada de Friedrich, misturada à da sobrinha. Lembrou-se, com um sobressalto, que  Friedrich não era muito mais velho que ele.

A capela não tinha ar condicionado. Tinha a impressão de ter sido engolido por um animal.

A Congregação estava completa. Todos de toga. Mas, antes de sauda-los, dirigiu-se à sobrinha. A roupa parecia a mesma da noite anterior, mas a pintura em volta dos olhos tinha corrido um pouco. Acompanhava-a uma jovem de aspecto diáfano, que ela apresentou, vagamente, como sua amiguinha. Depois, olhou-o novamente de cima a baixo e riu :

– Seu peignoir é lindo, querido, mas esta sujinho sujinho !

Estava. A sua toga estava coberta de açúcar. Esfregou-a, mas o açúcar resistiu, entranhando-se no pano. Pior, as mãos ficaram pegajosas.

Pensou em tirar a toga, mas a Congregação o inibiu. Divisou uma porta estreita, que devia ser o banheiro. Ir lá antes de cumprimentar a Congregação era uma quebra de etiqueta indesculpável, mas apertar todas as mãos com as suas pegajosas era pior ainda.

Cheirava mal e não tinha luz. Tropeçou em um balde, que fez um barulho terrível. Chegou à pia. Não tinha água.  Sentiu o suor frio descendo pela camisa, apesar do calor. E a bexiga apertando. Quando ia aliviar-se, bateram na porta. Abotou-se rápido e abriu-a, piscando. Deu com a sobrinha de Friedrich. Atrás dela, a Congregação.

– Acabou ?

Inspecionou-o de alto a baixo e ele, instintivamente, alisou a toga, espalhando ainda mais os grãos de açúcar. Ela indicou com a cabeça a Congregação:

– Chamei-os para acabarmos com isso logo. Minha amiga está com dor de cabeça.

Teve que cumprimentar a todos, um por um. Tinha a impressão que sua mão grudava nas deles e que o olhavam com espanto e nojo.

Quando saíram, começava a pingar. Ao chegarem à beira do túmulo, tirou as folhas do discurso do bolso, sentindo os dedos grudando no papel. Todos olhavam dele para o céu e de volta.

Tomou fôlego. Mas, quando ia começar, cobriu-o um trovão. A jovem diáfana deu um grito e, fugindo, deu-lhe uma cotovelada no peito, onde a dor do estiramento era mais intensa. Perdeu o fôlego.

Quando o recuperou, a chuva caiu, tropical. O papel empapou. Deu um passo atrás, para proteger-se, e afundou o pé numa poça, prontamente formada. Todos corriam. Desesperado, ouviu-se gritar:

– Friends, Romans, countrymen, lend me your ears; I come to bury Caesar, not to praise him !.

Todos corriam da chuva. Menos a sobrinha, que, do outro lado do túmulo, gargalhava. A mesma risada de Friedrich.