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Duende

Fabio S. Erber, Conto de Fabio Erber

A Herança

Se me olhar no espelho, posso vê-lo. Descontando, claro, meus quilos a mais e cabelos a menos. Um homem naturalmente corpulento, cabelos escuros, olhos pequenos, o nariz grande e adunco. A boca larga, sempre ocupada, desde criança, com balas, cigarros, chicletes, o que fosse.

Samuel, Sammy, e eu nascemos com um dia de diferença. Eu antes, o que talvez explique alguma coisa. Os dois, filhos únicos. Nossas mães eram gêmeas, o que talvez explique a coincidência.

Seguimos paralelos a infância e a adolescência. Só agora dá para ver que já haviam diferenças. Imperceptíveis, à época.

Separamo-nos, mesmo, quando fomos estudar nos Estados Unidos. Ou melhor, eu fui para estudar; Sammy foi mandado pelo pai. Tinha-se metido em uma encrenca, vendido algo que não tinha. Eu fui para o Leste. Boston. Harvard, Escola de  Direito. Sammy foi para o Oeste. Califórnia. Foi para Woodstock e não voltou.

De vez em quando,  mandava um postal. San Francisco, Los Angeles, Paris, Katmandu, Amsterdam.  Bancoc, Miami…Nada de muito prolixo. Wish you were here, love, nada mais. No meu aniversário, porém, era certo chegar um cartão.

Seu pai desesperava-se mas mandava-lhe dinheiro. Apesar da oposição virulenta e indignada do Tio Lemle, irmão mais velho e sócio principal do negócio. Meu pai também não aprovava, mas não era sócio. Eu me espantava por não me surpreender. Era como se uma parte minha, desconhecida, já antecipasse a bifurcação. O papel de filho e sobrinho modelo, advogado trabalhador, bom pai de família, não me desagradava.

Aos poucos, a geração mais velha foi morrendo. Nossas mães, sempre solidárias, foram com uma semana de diferença. Um ano depois, meu pai, e no  seguinte, o pai de Sammy. Um enfarte, ao voltar do banco onde foi remeter dinheiro para Sammy. No meio de uma discussão com Tio Lemle. Ninguém me disse porque discutiram, mas tenho as minhas idéias. Duvido que fosse por negócios. Tio Lemle era um gênio comercial e o pai de Sammy nunca questionou a ascendência do irmão mais velho. Não tinham outras paixões, salvo Sammy.

Sammy veio ao Brasil para o enterro. Antes, só voltara quando soube da morte da mãe, ao chegar do Nepal. Bom filho, à sua maneira, foi visitá-la no cemitério. Estava genuinamente triste com a morte do pai. A recusa de Tio Lemle, nosso único parente vivo, de vê-lo, deixou-o ainda mais acabrunhado.

Com a morte do irmão, Tio Lemle fechou o negócio, vendeu tudo e recolheu-se a um casarão em Petrópolis. Não casara nem tivera filhos.

Sammy herdou uma bela fortuna. Não me contou que negócios fazia lá fora mas encarregou-me de administrá-la. Eu sabia que sua intenção era torrá-la. Não precisava me dizer.

Fora as coisas práticas, pouco falamos. Nunca fôramos de muita conversa. Não questionamos a bifurcação, reconhecendo sua irreversibilidade. Sammy voltou para o exterior e a correspondência reduziu-se a ordens de pagamento para diversas partes do mundo. Os cartões de aniversário, porém, continuavam a chegar. Aos poucos, as ordens foram convergindo para a Califórnia, como um círculo se completando.

Este ano, a fortuna de Sammy estava acabando. Na mesma semana em que o avisei dessa iminência, minha secretária recebeu um telefonema de uma mulher que não se identificou: Tio Lemle queria me ver. Levei um susto, como se um fantasma tivesse entrado porta a dentro e pedido para fazer seu planejamento fiscal. Tio Lemle tornara-se um recluso tão eficiente, sem telefone, desencorajando abertamente qualquer visita, que eu acabara por esquecer que ainda existia.

Petrópolis virou algo detestável – a cidade média de interior. A parte comercial já estava chegando perto da casa do Tio, embora duvido que ele soubesse disso, ou se importasse. A casa, um mostrengo sem estilo, construída no início do século,  estava decrépita, as paredes externas descascadas, mostrando a alvenaria. A hera cobrira o largo portão, as grades, o muro da frente e avançava, intrépida, pelo portãozinho lateral, resistindo a quem tentasse abri-lo. Do lado de dentro, o mato  liquidou todos os competidores no antigo jardim. Ninguém, no entanto, acabara com a figueira, que, escura, dominava o pedaço. No meio do mato, pensando nas marcas que deixaria em meu terno claro, algo roçou minha perna. Esforcei-me para não gritar.

Os degraus da escada que dava acesso à varanda haviam rachado. Pedaços do corrimão de madeira e ferro batido e da grade que circundava a varanda haviam sido tragados pelo mato triunfante.

Já na porta assaltou-me o cheiro. Penetrante, perverso, de sujeira e podridão.

Com minha batida, a porta abriu-se. A penumbra fazia a sala parecer maior. O cheiro era espesso. Havia muitas respirações.

Finalmente, o enxerguei. Estava sentado numa poltrona no meio da sala. Cercado de gatos. Talvez tivesse esbarrado num deles, no mato.

A voz era aguda e anasalada. Tão fraca que parecia o fantasma da voz que eu lembrava. Mandou-me puxar uma cadeira e sentar-me. Não disse palavra de boas-vindas. Muito menos de agradecimento por ter largado tudo e subido a serra num dia útil.

Tomei coragem e abri uma janela.  Precisava de luz e ar fresco para não correr. Vários gatos reclamaram em antífona.

Tio Lemle virara um duende!

Encolhera, mas de forma desigual. A cabeça. agora, era enorme. Nela, ainda restavam alguns fiapos de cabelo branco, espalhados como tufos pela pele encardida. No meio da cabeça reinava absoluto o nariz, que se curvava sobre uma boca de lábios finos e alguns dentes amarelados. No queixo uns tufos de barba, que não chegava a ser branca. Sob a pele, viam-se os vasos, que davam ao rosto uma falsa aparência de corado. Sentado numa cadeira de rodas, coberto por uma manta de cor indefinida, o corpo parecia pequeno, mas as mãos, estriadas de azul e preto, ainda eram grandes.

A sala era uma ruína. Louça quebrada, alguns móveis também. E sujeira, por toda parte. Montes. O cheiro era insuportável. Também havia pilhas de livros, espalhadas por toda a sala.

Fechei a parte de cima. Há anos que não vou lá. Tenho um acerto com uma mulher da redondeza. Faz a comida e deixa na porta uma vez por semana.

Aos poucos, a voz ia recobrando força. Há quanto tempo não falava com um ser humano ? Vivo, pelo menos ?

Já satisfez a curiosidade ? Viu como vive o seu velho tio ? Então vamos aos negócios, que não o tirei do escritório num dia útil para ficar falando bobagens!

Era a voz do Tio Lemle como a lembrava, dando instruções ao pai de Sammy ou a meu pai, mandando-me estudar para progredir na vida. Sentei-me à sua frente.

Trouxe o gravador, como mandei ? Tome notas também, porque não confio muito nessas coisas.

Fez uma pausa.

-Na verdade é simples. Estou morrendo.

Abanou a mão com força, para impedir-me de falar.

-Sei que sente. Alguma coisa.

Olhou-me fixo nos olhos.

-Não estou senil nem maluco, sobrinho. Apenas sei que a morte está muito perto.

Relaxou e mostrou-me os poucos dentes.

-Andei muito ocupado, estudando coisas que não lhe interessam. Mas agora, tenho algo a fazer que é da sua área. Meu testamento.

Olhou-me fixo novamente. Parecia reunir forças.

-Nomeio meu sobrinho Samuel meu herdeiro universal.

A voz era firme e a carga de prazer e ódio que trazia quase tirou-me da cadeira. Prosseguiu no mesmo tom.

-Meus bens são esta casa e seu conteúdo. A escritura da casa você encontra naquela gaveta. Pode examinar – está em ordem. Todos os impostos pagos, tudo em ordem para que meu sobrinho possa gozá-la.

Pensou um pouco.

-Mas o principal é o conteúdo. Que também lego a Samuel. Nele há um tesouro, que será dele, se souber achá-lo. E conservá-lo.

Pôs-se a rir. Gargalhava, com tal prazer que eu sentia calafrios, apesar do calor abafado da sala.

Fez-me repetir tudo e tocar a gravação. Recusou-se a esclarecer o que era o tal tesouro.

Trouxera um laptop e resolvemos tudo rapidamente. O tesouro ficou incluído no conteúdo da casa, sem especificação. Como dissera, era simples. Do ponto de vista legal. Antes de assinar, teve uma idéia.

-Coloque aí uma clausula adicional. No caso de falecimento de Samuel, a casa e tudo mais passam a você.

Com um risinho satisfeito, acrescentou :

-Não há risco de você encontrar o tesouro se Samuel não conseguir.

O olhar pôs-se vago e ficamos muito tempo em silêncio. Por fim, despediu-me com um gesto da mão. Pensei que deveria beijá-lo ou fazer algum gesto de carinho, mas não foi possível.

Quando estava na porta, chamou-me de volta.

-Não deixe de tocar essa gravação para Samuel, quando chegar a ocasião.

Atravessei o jardim quase correndo. Tinha a sensação de ser observado.

Uma semana depois, a mulher que lhe preparava a comida telefonou para comunicar o falecimento de Tio Lemle. Para minha surpresa, chorava muito e dizia que ele era uma ótima pessoa. Enterrei-o em Petrópolis mesmo. Estávamos só ela e eu. Era velha, gorda e tinha um ar de boa pessoa, um pouco pateta. Mandei fechar a casa e contratei um vigia.

Sammy chegou no fim do mês. Nada pareceu espantá-lo. Ouviu a gravação com o mesmo espírito com que escutara meu relato. Tio Lemle, no fundo, era um bom sujeito e gostava dele. No fim da vida, reconhecera que fora injusto e corrigira o erro deixando seu dinheiro para quem mais precisava. E precisava muito!

O cinzeiro já transbordava mas acendeu outro cigarro. Penso que interpretou mal  minha cara, porque perguntou :

-Você não se incomoda? Com a herança? Meti-me em uns negócios complicados e estou a perigo. Meus…clientes, não são do tipo que se queixa ao bispo. Ou ao advogado.

Não comentou mais e também mais não perguntei. Marcamos para ir a Petrópolis no dia seguinte, mas um mal súbito me impediu. Sugeri adiarmos para o fim de semana, mas ele estava com pressa. À noite veio ver-me. Anunciou que parara de fumar e ofereceu-me um drops.

-Estive lá. Bad vibrations, man. Dá para vender? Tipo rápido?

Vender é sempre possível, depende do preço. Rápido, mesmo barato, é difícil.

Pensei que Sammy devia estar mesmo pressionado, para ter esquecido assim o que nossos pais e o tio Lemle teriam dito.

-Então, só me resta achar o tal tesouro. Pelas minhas contas, tenho quinze dias. Vou precisar de ferramentas, roupas e comida. Me empresta algum?

Ofereci emprestar-lhe o que precisava para pagar os tais “clientes”.

-Só in extremis. Esse é um negócio em que é melhor você não se meter. E, depois, o Tio Lemle deixou-me um tesouro!

Ofereci para ajudá-lo na busca.

-Muito grato. Mas tenho a intuição de que o Tio arrumou as coisas de modo que, seguindo a minha cabeça, vou acabar achando. No offence meant, mas sinto que você vai acabar atrapalhando. Sua cabeça ficou muito diferente.

Rindo, enfiou outro drops na boca.

No dia seguinte pegou as plantas da casa no meu escritório e subiu.

Tive uma semana especialmente complicada, mas, à noite, não conseguia não pensar em Sammy  e no Tio Lemle. Talvez Sammy tivesse razão. No domingo, não resisti e subi.

Cheguei no meio do dia. Todas as janelas e portas estavam abertas. Na varanda, encontrei Sammy, sem camisa, suarento, com o rosto vincado. Levou-me para a sala. Fizera uma retícula na planta, com quadrados de várias cores. Um bom número estava riscado.

-Olha aí! Adotei um método racional. Depois de estudar a casa, dei probabilidades a cada lugar e comecei a procurar. Comecei pelo térreo, para depois ir para o andar de cima e o porão.

Deixou-se cair numa cadeira, que rangeu.

-Nada! Nada vezes nada! Nesse ritmo, posso passar anos aqui; nessa catacumba! E tempo não tenho!

Voltamos para a varanda. Estava muito tenso. Perguntei-me se dormira ou mantivera a busca durante as noites. Encheu a boca de balas. Dava para alimentar-se de balas? Falava entredentes.

-Estive pensando. O tesouro só pode ser de coisas muito duráveis, fisicamente. Duráveis em valor também. Ações, títulos, papel, estão fora. O velho já deve ter escondido há tempo, pelo estado de saúde que você descreveu. Só pode ser ouro e pedras preciosas!

Ocorreu-me uma idéia terrível :

-E se for algum conhecimento? Ele falou de pesquisas que eu não iria entender.

Ria muito. As lágrimas corriam soltas.

-Você está fora de sintonia com o velho. Dinheiro, grana, era o que lhe interessava e que preciso!

Pegou-me pelo braço:

-Vamos almoçar, brother. Estou sentindo que estou na trilha errada.

Depois do almoço despachou-me de volta para o Rio. Quando parti, estava sentado em baixo da figueira, fumando um cigarro de maconha, totalmente indiferente à reação dos vizinhos.

Dois dias depois entrou em meu escritório. Estava ainda mais magro, a barba crescida, as roupas  mais sujas. Mas os olhos brilhavam. Ofereceu-me balas. Tentava parecer frio, mas a voz tremia.

-Depois que você foi embora, fiquei lá pensando. Tinha certeza de que estava no caminho errado. Aí, tentei pensar como Tio Lemle. Imaginar como ele me via. A sensação de erro foi Então, veio o primeiro clique. Não era para seguir uma estratégia racional,  certinha. Para isso, ele teria chamado você. Eu, eu sou o porra-louca da família!

-Esperei a noite e tomei um ácido. Oh boy! Que viagem naquela casa! No início, foi meio sinistro. Todas aquelas sombras. Tive medo de estar entrando numa very bad trip. Mas, depois, fui-me acostumando. Saí andando pela casa, vendo coisas, cores, que nunca tinha visto antes. As madeiras estalando pareciam tiros. Longe, ouvia a voz de Tio Lemle me chamando, mas não conseguia localizar. Andei pelo térreo, onde tudo era marrom. Na andar de cima, era verde e azul. Aí fui para o porão. A voz era mais forte. Como quando ia lá em casa levando um presente. Vermelho. Bordô. Muito sangue. Rosa também, pouco mas tinha. Uma coisa grudou no meu rosto. Deu tanto horror, medo, que caí no chão. Devia ser uma teia de aranha. Fiquei lá sentado, cercado de sangue, quase sem respirar. Então comecei a ouvir uns barulhos. Passinhos. Depois, vi uma sombra. Enorme! Acho que encostei numa parede, me escondi atrás de uma pilastra. Era um homenzinho. Bem pequeno. Com cabeção, perninhas curtas. Barbudo.

Pulei em cima dele. Não lembro bem o que aconteceu, mas segurei-o firme.  Ficamos assim, nos encarando, e aí eu disse que queria o tesouro do Tio Lemle. Que o Tio Lemle tinha deixado para mim. Ele disse que eu podia ser o herdeiro mas que ele tinha a posse. Parecia um advogado, o desgraçado! Aí, fiquei muito irado e apertei a garganta  dele. Começou a espernear e gemer e lembrei que, se  ele morresse, eu nunca acharia o tesouro. Coloquei-o no chão e fiz um trato. Podíamos dividir o tesouro. Metade para cada um. Aí  soube que o tesouro estava com ele. Tinha uma bolsa no cinto, que arranquei. Não tenho muita lembrança do que aconteceu depois. Acho que saí correndo…Na manhã seguinte, acordei em baixo da figueira, com isso na mão!

Mostrou-me uma bolsinha de couro, franjada nas pontas.

-Não tenho noção de como foi parar lá nem onde achei! Dentro havia isso…

Na palma da mão tinha os dois diamantes mais maravilhosos que já vi. Tenho um cliente que é obcecado por diamantes e acabei aprendendo bastante. Ficamos os dois ali, bestificados, olhando para as pedras. Fechei os olhos, para quebrar o encantamento e empurrar a inveja. O tesouro do Tio Lemle era um tesouro mesmo!

Sammy deu uma gargalhada e guardou os diamantes.

-Com isso, pago as minhas dívidas e posso retomar minha vida!

-E o homenzinho, duende, ou o que fosse? perguntei. Você não ficou de dar um para ele, racharem o tesouro?

-Um duende de ácido?! Rachar um tesouro com um duende? Oh man, quem ficou doido foi você! Vou para o hotel, descansar! Amanhã nos falamos.

Ria muito e quando saiu do escritório ainda dava para ouvir sua gargalhada. Ouvi de novo a gravação do Tio Lemle, mas não espantou a minha angústia.

Na manhã seguinte, telefonaram-me do hotel. Nervosíssimos. A camareira encontrara Sammy. Morto, deitado na cama. Não havia sinais de violência; tudo indicava uma morte natural. Queriam evitar um escândalo.

Chamei o médico da família e fomos para o hotel.

Era uma suíte. Enorme. Sammy começara a gastar por conta.

Estava deitado na cama. De pijama de seda, novo. Os olhos e a boca abertos. Um ar perplexo. Deu-me aflição olhá-lo.

Havia comprado uma mala nova e roupas também. O gerente fez abrir o cofre em minha presença. Lá estavam o passaporte, cartões de crédito e algum dinheiro. Mas não havia rastro da bolsinha nem dos diamantes. Interroguei o gerente. Não havia registros de visitas, ninguém vira nada. Mas poderiam ter subido direto, se soubessem o número. Era um hotel grande – não dava para controlar tudo. Sammy dera dois telefonemas internacionais. Para San Francisco. Os dois muito curtos.

O médico chamou-me de lado. Parecia muito espantado. Tinha um dos diamantes entre os dedos.

-Estava na garganta. Descobri por acaso.

Ficamos um tempo olhando a pedra. Eu, pensando em Sammy e suas transações. Ele, não sei.

-Ele morreu sufocado.

Pensei nas balas de Sammy. Na nossa infância. Lembrei do Tio Lemle.

-Ponha aí ataque cardíaco. Não vamos complicar as coisas.

O outro diamante não foi achado. Prefiro crer que Sammy o engoliu, mas não tive coragem de pedir uma autópsia. Que descanse em paz. Ele, o Tio Lemle e os demais.

O diamante que restou, vendi para meu cliente. Há pouco tempo, ele me assegurou que outra pedra parecida não apareceu no mercado. O que não quer dizer muito. A casa, mandei demolir, cimentar o chão e virou estacionamento. Só deixei a figueira, mesmo que o manobreiro reclame.

 

 

Desenhos

Apesar do ar-condicionado, ele estava suando muito. Podia ver as manchas se espalhando na camisa amarela. Era muito grande e fora musculoso. Agora, engordara. Ele afrouxou a gravata marrom e respirou fundo. Ela sentia um misto de desprezo e repugnância. E raiva. E, no fundo, esperando, o medo. -...

Desenhos

Fabio S. Erber, Conto de Fabio Erber

Apesar do ar-condicionado, ele estava suando muito. Podia ver as manchas se espalhando na camisa amarela. Era muito grande e fora musculoso. Agora, engordara. Ele afrouxou a gravata marrom e respirou fundo. Ela sentia um misto de desprezo e repugnância. E raiva. E, no fundo, esperando, o medo.

– Pensei que você fosse capaz de me proteger.

Pôs todas as emoções na frase, para atingi-lo. O suspiro virou um ronco. Um homem tão grande e forte e tão frágil! Os homens eram idiotas.

– Você, dessa vez, exagerou!

– Eu ?! Ramon, o idiota, toma uma overdose, e eu sou culpada?

Mas pensou que errara, mesmo, e perdera o controle. Não deveria ter dito a Ramon que trepava com Pablo. Especialmente Pablo. E especialmente quando Ramon, mais uma vez, fora impotente. Não resistira à tentação de torturá-lo um pouco, mas fora longe demais. E, agora, era irreversível. A morte era irreversível. Sentiu raiva do morto e de si.

Tecnicamente, fora um suicídio. Mas, ali, tecnicalidades não eram relevantes.

Pablo levantou-se para falar. Quase um pronunciamento oficial.

– Para o Chefe, você é a responsável pela morte do filho dele. E ele quer vingança. Vou vê-lo daqui a uma hora. Ele vai me mandar prendê-la. Você tem pouco tempo.

Pensou, “por que ele sempre o trata como “O Chefe”? É o Presidente. Pode ser um ditador, mas é o Presidente. Chefe parece coisa de máfia. Mas, talvez seja isso: são a Máfia”

Era sempre assim; quando tinha medo, dava para divagar. Pablo olhou o relógio.

Sabia que ele cumpriria a ordem do Chefe. Uma morte que não queria imaginar. Sentiu um calafrio. E tinha pouco tempo. Mas precisava confirmar uma defesa.

– O Chefe sabe …de nós dois, Pablito?

O silêncio confirmou o que pensava.

– Ele não gostaria de saber. Pode até dar-lhe idéias diferentes, sobre a morte do filho.

Ele abriu e fechou as mãos pesadas e deu um passo em sua direção.  Sentiu medo, mas manteve o sorriso.

– Há as fitas, lembra? Essas, você não pode matar. Estão fora, no exterior, como eu avisei. Meu seguro.

Era mentira – não havia fitas gravadas – mas ele não sabia. O que contava era seu medo.

Levantou-se e foi até ele. Beijou-o na face e empurrou-o delicadamente para a porta.

– Adeus, Pablito.  Me dê o tempo que puder. Por nós dois. Nosso pacto de vida.

Deteve-o na soleira e encarou-o.

– Não quero sofrer um acidente. Não quero ser seguida. Qualquer coisa, as fitas entram no ar.

Beijou-o novamente, dessa vez na boca. Queria que ele saísse com seu gosto, seu perfume. Depois de um segundo, ele respondeu. Ainda tinha poder.

– Foi bom, Pablo. Ainda vamos nos encontrar. Logo logo.

Afastou-se e ficou encarando-o até que abaixasse os olhos.

Enquanto esperava pelo ruído do motor do carro, olhava as mãos. Estavam tremendo. Aquele jogo não era o seu. A violência física enojava-a. O poder, de que tanto gostava, tinha que ser sutil. A violência também. Ramon fora divertido, no início. Pablo, excitante. Suava poder. Mas errara.

– Ele tem razão. Fui uma idiota, censurou-se alto. Deu de ombros. Talvez tivesse aprendido. E não tinha tempo.

Decidiu telefonar para o escritório. Ainda bem que acabara a arte-final que haviam encomendado. Detestava deixar coisas incompletas. Não entrou em detalhes, mas insinuou que tinha que viajar por “razoes políticas”. Era uma garantia dupla: de que não fariam perguntas e de que poderia voltar, se precisasse. Tinha certeza de que o ciúme de Pablo mandara vigiar o telefone do escritório, mas era irrelevante. Se a pegassem, não faria diferença.

Respirou fundo e tentou concentrar-se. Encarou o Chefe. O Presidente. Seu retrato estava lá. Pablo mandara emoldurar. O retrato que ganhara o concurso e abrira-lhe as portas. Na época, gostara. Do retrato e do poder. Agora, que conhecera a pessoa, percebia os defeitos dos dois. Mas, se tivesse feito como os conhecia, não teria ganho o concurso.

Por sorte, tinha pouco dinheiro no banco. Seu sentido de impermanência impedia investimentos. Não tinha sensação de futuro. Perdeu algum tempo selecionando as roupas. Poucas, que coubessem numa bagagem de mão. Fez uma pasta com seus melhores desenhos. Quando acabou, teve a sensação de que era definitivo.

No aeroporto, sentiu alguma pena de abandonar o carro. Dava-lhe a impressão de liberdade.

O primeiro voo era para o Rio de Janeiro e São Paulo. Gostava do Rio. Ida e volta. Tudo que ajudasse a Pablo a dar ao Chefe a impressão que era uma ausência temporária. O pacto de vida. Sentiu vontade de rir. Mas percebeu que estava com medo. E com raiva. Não queria sair assim, fugindo. Mas era culpa sua.

Saltou no Rio.

 

Trabalhava como frila. Odiava a exploração, mas não deixava rastros.

O medo não a abandonava. Tinha pesadelos, em que homens a agarravam e a afogavam no mar.  Evitava qualquer contato com a colônia e alternava as bancas onde comprava jornais de Assunção. Quanto ao sotaque, como tantas outras coisas de infância, permanecia indelével. Mas os brasileiros tomavam-na por argentina.

Na manhã de domingo, no jornal estava o retrato. Pablo Aguirre. Era uma foto oficial, com o peito cheio de medalhas. O helicóptero caíra pouco depois da decolagem. O enterro fora com grandes honras. Que importava se fora acidente ou sabotagem? Lembrou-se do pesadelo.

Não tinha intimidade com o mar. Era fluvial e o movimento e a força do oceano sempre a intimidaram. Mas mergulhou de cabeça e nadou para o fundo, furando as ondas. Embolou um par de vezes, perdendo o fôlego, mas seguiu, além da arrebentação. Não havia gente por perto e despiu-se. Ficou boiando, deixando-se levar pela correnteza, olhando as nuvens. Sentia as correntes de medo indo para a água, misturando-se no mar, sem afogá-la. Saiu longe de onde entrara e voltou pela praia, enfiando os artelhos na areia quente e sentindo o sol queimar-lhe as costas, como na infância.

No dia seguinte foi para Curitiba, onde os exilados se concentravam.

 

Fizera três posters, como haviam pedido. E um trabalho seu, com o recado que queria dar. Fizera os três posters expressionistas. Os dois primeiros denunciavam a opressão e a tortura – uma bota sobre o pescoço de um índio e uma mulher num pau-de-arara. O terceiro era uma bandeira rasgada. Fizera-os facilmente e estava satisfeita com a qualidade, mas a que serviam? A incomodar um pouco as pessoas. Como, se no fundo, não soubessem. Eram um grito de dor. E de fraqueza. E nada disso servia para mudar.

Seu trabalho era desenhado em história em quadrinhos. Um homem atirando com uma bazuca e um carro explodindo. Dentro do carro, no banco de trás, um homem uniformizado, sendo fragmentado. O Chefe. Retratara-o tantas vezes, que, mesmo estilizado, era reconhecível.

Arrumou-os e esperou.

Entrar nos exilados fora fácil. E arriscado. Escarnecendo da oposição, Pablo lhe falara de informantes infiltrados. Ao propor-se a fazer os posters, assinalara sua presença. Sabia que o Chefe não a esquecera. Com a morte de Pablo, caíra sua última defesa. Estava só. Como no mar.

Ficara um tempo observando as lideranças, sentindo as vibrações. Desconfiava dos mais eloquentes e desprezava os que pareciam movidos por razões vagas, como solidariedade. Finalmente, achou-o.

Chamavam-no “El Basco”. Alto, magro, consumido pelo ódio, mas frio. Tinha a testa alta e os lábios pálidos. Falava pouco, mas tinha o domínio completo de um grupelho, que o via como o Messias. Sua impaciência com o discurso teórico era mal disfarçada. Os outros tinham-lhe medo, que também tentavam dissimular.

Buscou um caminho de aproximação. Conseguiu, furando o cerco do grupelho, sentar-se a seu lado numa reunião. Ela nunca tomava a palavra em público, mas fez, em voz baixa, um par de comentários quanto ao desperdício de verbo e à necessidade de ação, que o fizeram notá-la.

Numa festa da colônia, observou-o quando uma jovem do grupo o tirou para dançar. O corpo era-lhe incomodo. Soube que, se fossem para a cama, a usaria apenas para gastar energia. Não se incomodava de ser usada, se fosse útil; mas não seria. Teria que fazer uma proposta direta, usando os seus meios.  Se fosse um informante, estava perdida.

Na reunião, todos se concentraram nos posters. Menos ele. Estava examinando o desenho atentamente, quando ela se aproximou. Os lábios finos tinham ganho alguma cor. O peixe, ensinara-lhe Pablo, precisa de tempo para gostar da isca.

– Parece uma boa ideia, comentou, sem olhar para ela.

Deu um leve puxão na isca.

– É viável. Se houver um grupo com vontade.

– Com a segurança com que anda?

O peixe estava gostando da isca, mas tinha medo. Era um peixe experiente.

– Nem sempre tem segurança.

E afastou-se, para dar-lhe tempo de gostar.

Como esperava, ele ficou depois dos outros. Com a isca cravada na goela. Fingiu não perceber. Ele pegou seu desenho, aproximou-se e ordenou.

– Fale.

– Por que vou confiar em você? Isso está cheio de informantes.

Era um jogo lento, difícil. Se o peixe a puxasse para a água, iria afogar-se.

– É verdade. E se eu fosse um, você iria morrer logo, pelo risco de que soubesse, mesmo, do que está falando.

Sentiu o estômago contrair-se. Ele sorriu.

– Mas gosto do seu cuidado.

Pensou um pouco, debatendo algo em silencio. Ela sentia a linha retesando-se, o peixe enganchado, a mão de Pablo firmando-lhe o braço.

– Vou dar-lhe uma prova. O helicóptero de Pablo Aguirre. Não foi acidente. Fomos nós, com um míssil. De um terreno baldio em Santa Maria. O helicóptero passava sempre por lá. Foi só esperar. Demos sorte, porque não sabíamos quem estaria dentro.

Não fumava, mas acendeu um cigarro do maço dele, para ganhar tempo e controlar o estômago. As mãos tremiam-lhe. Sempre suspeitara de que não fora um acidente, e havia rumores na colônia de que fora um atentado. O helicóptero era a paixão de Pablo, o símbolo de status que mais prezava. Que ironia, que a oposição, que tanto desprezava, o tivesse atingido dentro dele!

Finalmente, conseguiu controlar-se e encarando-o, disse, baixo, mas claro:

– O Chefe tem uma amante. Vai visitá-la às terças, às quatro horas. Vai disfarçado, porque tem medo da mulher. Só com um carro de segurança.

– Como é que você sabe disso?

A pergunta também viera em tom baixo, mas era decisiva. Sentiu a ameaça no ar. Mas já pensara muito na resposta. Escolhera Ramon, o filho do Chefe, como fonte da informação. Todos sabiam que era um viciado e, portanto, por definição, pouco confiável. Era outra ironia, que do fiel Pablo tivesse vindo a inconfidência amorosa. Ramon tinha pelo pai sentimentos tão turvos que dele mal falava, embora aproveitasse o seu poder. Provavelmente nem sabia da amante.

Admitiu que “tivera um caso” com Ramon e afirmou “sentir” que o Chefe fora responsável por sua morte. A morte era pública. A passionalidade da vingança estava conforme a visão que ele tinha das mulheres. Motivos ideológicos teriam pouca credibilidade. O peixe estava em terra.

Ele fez questão de levá-la em casa. Queria saber onde morava. No caminho quase não se falaram, mas, ao se despedir, ele sugeriu que não saísse da cidade por uns tempos.

Seguiu trabalhando, tampando a ansiedade com desenhos que vendiam a felicidade. Continuou frequentando as reuniões de exilados. El Basco desapareceu por uma semana e, ao voltar, não tocou no assunto. Havia noites em que não conseguia dormir, e redobrou as medidas de segurança.

 

Não foi necessário comprar os jornais da colônia – a morte do Chefe mereceu primeira página dos nacionais. Não era todos os dias que o Chefe de Estado de um país vizinho morria em um atentado, o carro explodindo. Com uma diferença de detalhe: haviam usado um míssil.

Os exilados pareciam uma colmeia que tivesse levado uma pedrada. No tumulto dos que se preparavam para voltar e disputar o poder, o registro de sua partida foi feito e logo esquecido.

 

Voltou para o Rio. El Basco estaria tão envolvido nas lutas que teria pouco tempo para lembrar-se dela. Era perigoso demais para que os outros o deixassem vivo.

Começou a tomar gosto por desenhar paisagens. O Rio era lindo.

Mistérios de Sisifo

De que é feita a pedra seu destino? Empurra matéria ou culpas intangíveis?   Sísifo pesa o passado?   A compulsão é a maldição?   Sobe o morro repete o gesto no desespêro ou otimista acha sempre desta vez dará?

Mistérios de Sisifo

, Poesia de Fabio Erber

De que

é feita a pedra

seu destino?

Empurra matéria ou

culpas intangíveis?

 

Sísifo pesa o passado?

 

A compulsão é a maldição?

 

Sobe o morro

repete o gesto

no desespêro

ou

otimista

acha sempre

desta vez dará?

Américo

Há nos Uffizi, em Florença, um retrato, feito por alguém cujo nome se perdeu, de Américo Vespucci, burocrata, navegador, cortesão, homem de negócios, piloto mayor que deu nome ao nosso continente. Mostra-o de perfil, já entrado em anos, com cabelos ralos, o nariz adunco, a face vincada,...

Américo

Fabio S. Erber, Conto de Fabio Erber.

Há nos Uffizi, em Florença, um retrato, feito por alguém cujo nome se perdeu, de Américo Vespucci, burocrata, navegador, cortesão, homem de negócios, piloto mayor que deu nome ao nosso continente. Mostra-o de perfil, já entrado em anos, com cabelos ralos, o nariz adunco, a face vincada, a boca fina e o maxilar marcante. Apesar da idade, o pescoço e os ombros são fortes. E’ um quadro típico da época e poderia ser o retrato de algum condottiere ou de um membro da família Medici, em cujo serviço Américo iniciou a carreira.

De Américo Vespucci da Costa restava, até há pouco tempo, apenas um auto-retrato, feito a crayon, pregado por tachas em uma parede de um pequeno hotel de Itacuruçá.  Por algum motivo, a filha do dono encantou-se com ele e pregou-o no hall, onde poucos hospedes transitam e ainda menos lhe dão atenção.

Embora, para sua dor, Américo Vespucci da Costa jamais tenha cruzado o Atlântico e, muito menos, visitado os Uffizi, é possível que tenha visto em algum lugar a reprodução desse retrato de Vespucci, o navegador. Talvez seja coincidência. Ou  destino. Ou, simplesmente, a lógica do retratar.

O fato é que a pose é a mesma, de perfil. No entanto, embora os elementos sejam os mesmos, o resultado é distinto. Não se tem a impressão de força – é tudo em tom menor e é necessário observá-lo atentamente (o que poucos fazem) para detectar a vida por detrás do traço.

Assim como o Vespucci navegador, o da Costa era filho de um tabelião. Os pais morreram cedo e o menino foi criado por um tio solteirão, homem de poucas palavras e afetos mas que o provia dos meios materiais. Não tinha irmãos ou primos e, quando o tio morreu subitamente, atravessando uma rua de Vitória, descobriu-se órfão.

O desamparo coincidiu com a descoberta de seu nome. Até então, aceitara o nome com naturalidade. No colégio, estava registrado como Américo V. da Costa e nunca se preocupara com o Vespucci, atribuindo-o a alguma longínqua italianidade.

Cedo mostrara facilidade para o desenho e, terminado o colegial, inscrevera-se na Escola de Belas Artes. Ao preencher os papeis tivera que colocar o nome completo e o Vespucci, pela primeira vez, chamou-lhe a atenção. Em casa, perguntou ao tio sobre a origem do nome e espantou-se mais ainda quando esse, avaro de sentimentos, mostrou grande irritação, negando qualquer italiano na família e dando como razão a loucura do pai.

Embora esmaecida, a figura do pai era de retidão cartorial e nada fazia supor alguma extravagância, muito menos desvario. Pressionado, o tio aludiu a outras vidas, menos regradas do que a foto paterna de terno-e-gravata, emoldurada em prata, sugeria.  A morte súbita do tio interrompeu o desvendar do passado.

O nome tornou-se obsessão. Buscou informações com velhos amigos do pai, mas esses eram poucos e eram discretos ou pouco sabiam. Uma longa pesquisa pelos poeirentos cartórios de Vitória e Alegre levantou uma arvore comum, com raízes em imigrantes portugueses e libaneses, sem qualquer ramo remotamente italiano.

A única pista encontrou-a numa velha pasta, guardada no sótão da casa, onde havia cópias de mapas antigos. Entre esses estava o  grande planisfério de Waldsemüller, onde o nome América foi pela primeira vez usado.  Na parte superior – o hemisfério do Mundo Antigo – havia o retrato de Ptolomeu e, abaixo, no Novo Mundo, o retrato de Américo Vespucci, mais jovem que no retrato dos Uffizzi

Tangido pela orfandade, tentou seguir os rastros do pai desconhecido. Enfurnou-se na biblioteca da Universidade mas pouco encontrou. Apenas o suficiente para firmemente tomar o partido dos defensores de seu homônimo, contra os que o acusavam de ser um usurpador de méritos alheios.

Logo descobriu que sua paixão era motivo de irrisão e aprendeu a silenciar. No entanto, passou a assinar Américo Vespucci da Costa. Sentiu-se tentado a reclamar um distante parentesco mas a vergonha o impediu. Deu, porém, para ficar horas olhando o mar, tentando imaginar a travessia do Atlântico naqueles barquinhos de madeira e as viagens ao longo da desconhecida costa americana. Mais que tudo, impressionava-o a paixão que inspirara aqueles percursos e que, acreditava, levara o pai a dar-lhe aquele nome de destino.

O mar, porém, inspirava-lhe terror. Sabia nadar,  porém nada impedia o pânico que sentia ao entrar na água. Inscreveu-se em um curso de vela, mas não conseguiu entrar no barco.

Aos poucos acreditou reconciliar-se com o nome e tentou retomar o curso normal da vida. Esperava ser artista. Apesar do bolor da Escola, foi descobrindo a gloria da cor e movimento dos volumes. No entanto, embora fosse capaz de reproduzir com fidelidade e facilidade obras alheias, quando tentava algo próprio, o resultado era sempre insosso. Tentou todos os meios, do óleo às colagens – horas diárias – o fim era sempre frustração. Professores e colegas não se davam conta de sua angústia e elogiavam-lhe a técnica e o apuro.

Convenceu-se que o mar e a pintura estavam, de alguma forma, associados. Quando superasse o medo de um a outra brotaria. Porém, para romper as cadeias precisava de uma força externa. Sozinho, não conseguiria.

Em busca de uma paixão que o libertasse, enamorou-se por uma colega. Mais velha, já com um filho, Vitória era ruiva e vulgar. Alegre, apesar da falta de dinheiro. Tímido, a princípio circum-navegou-a. Quando a despejaram do quarto que alugava, encontrou a brecha que buscava, oferecendo-lhe um, na casa que herdara do tio.

Vitória e o garoto apossaram-se da casa com a tranqüilidade dos conquistadores. O recato do jardim fronteiro foi eviscerado, agregou-se um vira-latas a seu convívio e a casa tornou-se ponto de festas que varavam a noite, para reclamo e horror dos vizinhos. Américo sofria e rondava Vitória, sem ousar protestar ou pedir. Até que uma noite, com ar enfastiado, ela o levou para a cama. Onde ele descobriu, aterrorizado, a ejaculação precoce.

Aquilo pareceu diverti-la e todas as noites voltavam à cama, sempre com o mesmo resultado. Vitória aumentava a tortura repetindo que era a falta de paixão a causa de sua insuficiência.

Para convencê-la da paixão, decidiu pintar-lhe o retrato. Pediu-lhe uma fotografia, mas ela o escarneceu. Que a pintasse como a sentia.

Passou dias escolhendo o estilo em que pintaria sua paixão. Finalmente, decidiu-se por um retrato naturalista. Mesmo sem uma fotografia, tinha-a presente na vista. Passou dias trabalhando, buscando o traço que melhor expressasse o oval do seu rosto, o tom que traduzisse fielmente a cor de seus cabelos, o brilho dos lábios.

Terminou-o numa manhã. No período final trabalhara noite e dia, sem cessar.

Encontrou-a na cozinha, tomando o seu tardio café. De trás das costas, retirou o retrato escondido, as tintas ainda frescas. Colocou-o à distância necessária e esperou, trepidante.

Vitória olhou para o retrato algum tempo, e bocejou:

– É… a cara está aí… Mas a alma não!

Enquanto jogava o resto de café no lixo, olhou uma vez mais para o retrato e perguntou:

– Essa é a paixão que você tem por mim? Essa coisa acadêmica  e insossa?

Américo saiu de casa sem dar palavra. Andou a esmo o resto do dia. Sentia tantas dores que não sabia de qual delas tratar. Tentou por ordem na dor, indagando-se se tivesse feito o retrato em outro estilo o resultado teria sido distinto. Respondeu-lhe a sensação de completa impotência.

Ao voltar para a casa, em busca de abrigo, encontrou Vitória na cama, com um colega. Sem conseguir falar, Américo foi expulso de casa, aos berros. Levava o retrato nas mãos

Começou a beber ao pôr do sol e seguiu pela noite. De madrugada, quando o ultimo bar fechou, sentindo a humilhação latejando, foi pela ponte, pensando na morte. Dela – mas não se sentia capaz. Mesmo que tivesse uma arma, sabia que não conseguiria atirar. E a humilhação seria ainda maior. Talvez, então, a própria.

A idéia ia ganhando força quando lembrou do nome. O mar, essa era a solução. Afogar-se era um bom fim para quem tinha esse nome. Podia pular da ponte e seria rápido. Só havia uma velha ali perto, parada, e não podia impedi-lo. Jogou o retrato no mar. A correnteza o levou, mas ficou olhando-o até desaparecer. Apoiou os cotovelos na mureta e ficou olhando a água, buscando coragem.

Ate que tocaram em seu braço. Era a velha. Era muito velha, tinha olhos fundos,  sem pupilas.

– Você está com a morte nos olhos, mas é muito cedo.

Para seu espanto, a voz  áspera não tinha piedade.

Ficaram olhando-se muito tempo. Ate que ela acrescentou:

– A paixão é feita de fogo e vento. Busque o fogo, não a água.

E afastou-se, sem olhar para trás. Apoiado na mureta, Américo chorou sua humilhação e sua dor.

Voltou para casa três dias depois. Encontrou-a aberta, vazia. Só haviam ficado os móveis mais pesados, difíceis de carregar. Pregado na cama um bilhete de Vitória, notificando a mudança e culpando-o. Mas só sentiu alivio.

Vendeu a casa e os móveis, tudo a bom preço. Guardou só os mapas antigos. Com os mapas, seu material de desenho e poucas roupas, iniciou a viagem. Fiel a seu nome, seguia o mar, junto à costa.

Recapitulava continuamente o diálogo com a velha. Tinha certeza que nele havia um significado para sua vida.

Buscava o fogo e o vento. As vezes encontrava um, às vezes o outro, nunca os dois juntos. Encantou-se com a chama dos poços de petróleo, mas eram muito distantes e, de alguma forma, desumanos. O vento de Búzios e Cabo Frio, que mexe nas dunas mudando-lhe as formas, fê-lo ficar por lá alguns anos.

Ganhava algum dinheiro desenhando retratos de turistas, pintando murais e insígnias em lojas e restaurantes. Suas demandas eram poucas. Morava só, em quartos alugados ou cabanas de pescadores. As pessoas o tratavam bem, mas mantinha-se distante, especialmente das mulheres. Apresentava-se como da Costa e ninguém notava a ironia. Não pintava ou desenhava para si, apenas como profissão.

Uma noite, andando na praia, viu a velha da ponte. Correu ao seu encalço, mas não a encontrou. Agitadíssimo, voltou à sua cabana. Abriu a sacola onde estavam os mapas. Todos, menos um, haviam-se esfarelado. Só restava o planisfério de Waldesmüller.

Aquele presságio o transtornou. A velha cobrara-lhe a continuidade da viagem. Acusava-o de ter ancorado em um porto protegido, de águas rasas, interrompendo a busca que o nome lhe impunha. Mas ele não se sentia capaz. Não conseguia pintar nem enfrentar o mar.

A cobrança passou a persegui-lo, até que fugiu. Na rodoviária pegou o primeiro ônibus.

No Rio não resistiu. Em todas as ruas imaginava que, dentre as pessoas que dormiam na calçada, iria levantar-se a velha da ponte e demandar-lhe fogo e vento. Ou acreditava vê-la do lado de fora da porta do quarto, esperando.

Tornou-se incapaz de desenhar, mesmo o mais banal dos retratos de turistas basbaques, que passeiam o tédio pela Avenida Atlântica.

Reuniu então os poucos restos e fugiu novamente. Ao acaso, tomou o velho trem que desce a costa e, sem escolher, saltou em Itacuruçá.

Deu as costas ao mar e foi trabalhar nas plantações de bananeiras. A terra e a chuva, misturadas com o vento, foram, aos poucos, dando-lhe equilíbrio. Era tido por louco, porém manso e trabalhador. Nunca se embriagava e morava sozinho. Era conhecido por Américo.

Embora não a abrisse, guardava a sacola com o material de desenho e o planisfério.

Aos domingos ou em dias de folga ia à igreja. Não por fé, mas para ver as pinturas. Depois de visitar todas, escolhera a católica, na praça principal, porque tinha mais quadros e as cores eram esmaecidas. Ficava horas imaginando como eram quando novas.

Também recomeçou a ver o mar. Primeiro aos poucos, depois o dia inteiro. Percebeu que já não tinha medo. Largou as bananeiras e arranjou um trabalho em um barco que transportava bananas ao longo da costa. A mistura de cheiros, da terra e do mar, deixava-o bêbado e reconfortado. Finalmente, buscou o fogo. Inicialmente em terra, em fogueiras. São João o encantava. Depois, tentou achar o fogo no mar. Explorava o litoral e as ilhotas, buscando um sinal.

Até que uma manhã, sentado na praça, viu passar uma jovem, na fímbria entre a adolescente e a mulher. Era um pouco gorda, muito branca e tinha os cabelos compridos, de um castanho avermelhado. Espantado, ouviu-se dizer “puro Ticiano”. Ela achou que era um galanteio, partido de um velho mal-cuidado, e fechou a cara, apertando o passo. Ele foi para casa e desenhou-a.

No início, havia o inefável prazer do oficio, o desencerrar um saber que temia perdido, a magia de dar nexo ao papel branco. Concluído, era aquilo mesmo: um desenho bem-feito, sólido, acadêmico, sem paixão. Não houve o milagre que, secretamente, esperara.

Mesmo assim, depois desenhou varias pessoas da cidade e algumas paisagens. Não  vendia esses desenhos – dava-os a quem os elogiasse. Talvez ainda existam alguns. É desta época  seu auto-retrato, o último que fez.

Junto com o desenho, redescobriu o planisfério e seu nome. Aos poucos, foram-no reconquistando. Passava horas esmiuçando os detalhes do mapa, reconstituindo passagens que manchas haviam apagado. Copiou inúmeras vezes o retrato de Américo Vespucci.

Em noites de tempestade, ia para o pequeno cais olhar o mar, deixando que o vento lhe corresse o corpo. Cada vez mais, buscava o fogo.

Até que, numa noite de lua-nova, encontrou-o. Havia muito vento mas ainda se viam estrelas. Ao largo, viu brotar uma labareda. Imensa e fugaz. Não se surpreendeu. Marcou o lugar pela posição das estrelas e correu para casa.

Jogou a sacola com o material de desenho e o planisfério num bote e fez-se ao mar. Era um barco tosco, de madeira, equipado com uma pequena vela.

O vento estava a seu favor e sentia-se quase voando, bêbado. Atras, o céu começou a fechar, mas não sentiu medo. Sabia onde ia. Quando estava quase lá, já dando para ouvir as ondas quebrando, caiu a chuva. Mas era tarde.

Quando o barco bateu, estava em pé na proa e foi arremessado para frente. Muito para frente.

Afundou muito e voltou devagar, sempre em frente. Até que estava numa praia, no escuro. Sem chuva.

Havia uma mulher. Alta, parecia jovem. Era ruiva mas tinha olhos escuros. Muito fundos. Perguntou-lhe se naufragara. Soube que toda sua vida dependia da resposta. Empertigou-se e encarou-a, negando. Viera por sua vontade. Ajoelhou-se na areia e, com o indicador, fez-lhe o retrato, em traços rápidos e sem hesitação. Os dois ficaram examinando-o. Era perfeito. Américo sentia-se orgulhoso. Veio uma onda e apagou-o, mas isso não o incomodou.

A mulher sorriu, virou-se e afundou na escuridão. Américo seguiu-a. Iam por uma floresta que parecia muito antiga, mas a trilha era bem cuidada. Nas margens havia estátuas de bichos, cobertas de vegetação, ou bichos que pareciam estátuas. Até que chegaram a uma gruta.

Sem dizer nada, a mulher pegou-o pela mão e entraram, com os pés afundando em musgos.

A gruta era uma passagem, cheia de ruídos esvoaçantes. Veio-lhe o terror, mas agarrou-se à mão adiante.

Quando saíram, chovia novamente. O vento trazia o barulho do mar. Com os pés na lama, chegaram ao buraco. De lá saía a chama, onde Américo Vespucci da Costa se consumiu, completando seu longo périplo.

De manhã, com o sol tímido de inverno, acharam o bote em uma praia próxima a Itacuruçá . Metade dele, sem o mastro e a vela. No fundo, porém, estava a sacola de Américo, com o material de desenho e o planisfério.

O material despertou pouco interesse: deram-no a uma criança para brincar. No entanto, o mapa era outra coisa. Ninguém tinha visto coisa igual: Américo nunca o mostrara. Um sugeriu que fosse antigo e, assim, valioso. Mas outro apontou para o verso, onde alguém, talvez o tabelião, fiel a seu oficio, carimbara em letras maiúsculas de imprensa, em tinta azul, CÓPIA. Embora esmaecido, o carimbo ainda era legível.

Cópias, contrafações, simulacros, todos sabiam ser de pouco valor. Assim, jogaram-no fora.

Quanto a Américo Vespucci da Costa, deram-no por morto, mas, por ignorarem seu nome completo, não registraram a ocorrência.