Ipanema

Como era Ipanema, antigamente — meu filho, o repórter indaga.

Por ele, desenrolo o novelo da memória.

Morávamos na Sadock numa casa baixa, meus pais, minha irmã e eu. E um cachorro, Tati. De um lado havia um edifício de três andares, sem elevador, que não me interessava porque só tinha adultos e velhos. Do outro lado, sim, era bom: tinha um terreno baldio onde a turma da rua jogava futebol. Quando havia pouca gente, jogava-se na calçada em frente, onde poucos carros passavam. As amendoeiras atrapalhavam um pouco, derrubavam muitas folhas; a gente pisava e escorregava.

Do outro lado do terreno baldio ficava a casa de Aristides e Clô. Seu Aristide e Dona Clô. Para mim, ele era muito velho na época. Cinquenta e dois anos. Dona Clô era muito mais nova ou aparentava ser. Vinte e nove. Ela foi a minha primeira paixão. Tinha visto Branca de Neve no cinema – minha mãe me levou, coisa rara. Decidi que Dona Clô era igual à Rainha Má, que me parecia muito mais bonita do que Branca de Neve, desde cedo, a preferência. Eu a observava sempre que podia. Uma vez ela me comprou um Chicabon na carrocinha. Lembro até hoje do gosto derretendo na boca, fazendo durar. Guardei o palito.

A casa do Seu Aristide era grande, com dois andares, muito maior do que a nossa. Uma casa grande e muito limpa, sem aquela bagunça de criança e de cachorro que eles não tinham. Minha mãe sempre reclamava do cachorro em casa. Na frente da casa havia uma amendoeira velha, enorme, que derramava um mundo de folhas e Seu Aristide catava todas de manhã, que era muito dado à limpeza. Jardim na frente era um nada, tudo cimentado, mas atrás havia um bom terreno, com duas árvores e uma rede. O gramado dava para um bom racha. Uma vez, perguntei à Dona Clô se podíamos jogar; ela riu muito: por ela sim, mas o marido não ia gostar. Seu Aristide era um homem alto, magro, caladão; tratava a agente bem, mas não tive coragem de pedir.

A parte de baixo da casa vivia fechada; nunca recebia visitas. O movimento era: Seu Aristide saindo de manhã, vindo almoçar, saindo de novo e voltando à noite. Ele tinha uma papelaria na Rua Montenegro; ficava  atrás da caixa registradora. Na rua a gente via tudo.

O terreno baldio tinha uma elevação no fundo; a gente jogava na parte plana. Uma tarde, eu estava no gol e meu primo Marcola, que estava no ataque do outro time, deu um bicão e isolou a bola no mato que cobria o morrinho. Fui buscar a bola e, como sempre, olhei para os fundos da casa do Seu Aristide. Dona Clô costumava ficar lá, na rede. Estava lá. Mas na rede também havia um homem. Não sei se sentiu meu olhar, mas levantou. Eu abaixei rápido. Não era o Seu Aristide; era um homem moço, moreno e forte. Só vi de relance, mas achei que já tinha visto na rua, no meio da tarde. Devolvi a bola e logo engoli um frango, logo eu que era bom no gol. Logo depois parei de jogar.  Não disse a ninguém o que tinha visto.

Não sei quanto tempo depois. Mamãe estava conversando com as vizinhas no muro da nossa casa. Até estranhei porque não era dada a muita conversa. Me chamou para dar boa tarde, que era educado. Uma delas falou de Dona Clô; não sei o quê e não sei por que, eu disse que ela parecia a Rainha Má. A vizinha me pegou pelo queixo e me olhou nos olhos. Disse para a minha mãe, Matilda: esse teu filho tem olhos lindos e enxerga longe! Todas riram, até Mamãe, sempre tão séria. Era conversa de adulto e fui tomar banho para poder ouvir Jerônimo, o Herói do Sertão, limpo e penteado, que era o trato em casa.

Vigiei a casa do Seu Aristide, mas era época do exame de Admissão e Mamãe arrumou umas aulas particulares, lá na Alberto de Campos, quase na esquina da Farme, porque eu não era bom de matemática e precisava de reforço. E ficava regulando o meu futebol para eu estudar mais.

No último dia da Admissão, me espantei ao ver Mamãe chegando no colégio com uma maleta na mão e Júlia, sua tia. Disse que era para nós dois passarmos uns dias com nossa avó, mãe dela, no Rio Comprido, que tinha umas obras para fazer lá em casa e que estaríamos melhor acomodados na casa da avó. Vovó tinha um quintal grande, cheio de árvores de fruta, pitangueiras e amora. Não reclamei e fui. Dois dias depois, Papai veio me buscar.

Lá em casa não havia sinal de obras, mas vi que a casa de Seu Aristide estava fechada. Meu coração apertou e perguntei à minha mãe o que tinha acontecido. Fechou a cara. Tinham mudado. Olhei para a calçada cheia de folhas; subi no morrinho do terreno. A rede tinha sumido. Eu não conhecia a palavra ‘depressão’, mas entendi o que era. Traição de Dona Clô: ter saído sem se despedir. Traição de meus pais por me mandarem para a casa da minha avó logo nessa hora. Ensurdeci para o nome dela. Quando o mencionavam, meus ouvidos se fechavam.

Passei na Admissão e fomos passar as férias em Petrópolis. Perguntei à minha mãe para onde tinham ido Dona Clô e Seu Aristide, mas ela disse que não sabia. Fiquei pensando se algum dia ia ver Dona Clô de novo.

Na volta das férias, a casa continuava fechada. O gramado dos fundos tinha virado um matagal. Na papelaria da Montenegro, havia outro letreiro e outro homem atrás da caixa.

O ano se dividia em antes e depois das férias. Depois das férias de julho, pouco antes das do verão, encontrei Seu Aristide na calçada em frente à sua casa. Tinha varrido as folhas e estava lavando todo o chão. Fiquei olhando. Seu Aristide parecia ter ficado muito mais velho, curvo, com um ar esquisito. Lavou a calçada várias vezes.

Tomei coragem e fui falar com ele. Dei bom dia e ele ficou me olhando, estranhando. Depois, sorriu e deu bom dia também, perguntando como eu estava e como iam os estudos. Disse que passei na Admissão e ele me deu parabéns. Aí, ficamos sem assunto, ele olhando para a amendoeira, quem sabe esperando que alguma folha caísse. Tomei mais coragem e perguntei pela Dona Clô. Ele me olhou ainda mais esquisito, depois deu um suspiro profundo, se abaixou até ficar da minha altura e disse baixinho que Clotilde tinha morrido, que não ia voltar nunca mais. Levantou-se e, olhando para mim, lembrando de alguma  coisa, disse que era verdade: que ela gostava muito de mim, que eu era um bom menino. Aí caíram umas duas folhas e ele se virou para apanhá-las. Dei até logo.

Morte era uma coisa que só acontecia em filmes de mocinho, e até eu sabia que era de mentira. Confirmei com Mamãe, que disse que sim, que ela tinha morrido e não queria falar nisso. Nunca tinha visto um morto, mas soube que não ia mais ver Dona Clô.

Todos os dias via Seu Aristide varrendo e lavando a calçada, de manhã e de tarde. Aos poucos ele ia alargando a área que limpava. Eu pensei que, em pouco tempo, ia chegar na frente da nossa casa e que Mamãe ficaria satisfeita, que não precisaria mais tirar as folhas das amendoeiras. Quando falei isso com ela, ficou furiosa. Disse que não precisava da ajuda daquele homem. Que ele era um monstro e não queria que  eu falasse com ele.

Seu Aristide continuou varrendo e lavando a calçada. Não me parecia nada, monstro, muito triste, com  aquele olhar perdido. Apesar de Mamãe, continuei cumprimentando por educação e por Dona Clô. Às vezes ele respondia; outras, não ouvia, longe.

Depois das férias, o Banco transferiu Papai para Belo Horizonte. Ficamos lá um ano e, quando voltamos, fomos para uma casa maior na Barão da Torre. Rua nova, turma nova. Mas um dia fui jogar com a turma velha da Sadock. A casa do Seu Aristide estava de novo fechada. Mamãe disse que ele tinha morrido. Eu não estranhei.  Depois, um casal mudou para lá e fez uma grande reforma, que não dava para reconhecer que Dona Clô tinha morado ali. Nessa época, Papai foi promovido e comprou um apartamento em Copacabana, no posto cinco e meio, onde Mamãe sempre quis morar, e saímos de Ipanema.

É o que lembro. Quando você, meu filho, tinha uns dez anos, levei você a uma festa de aniversário. Era no pátio de um edifício que tinha sido construído onde jogávamos futebol. Meu susto foi quando contei que ali havia um terreno baldio e você perguntou o que era um terreno baldio. Percebi que você garoto de Zona Sul nunca bateu bola num terreno baldio…

Meu filho, repórter, me olhou longamente. Disse que Aristides Moura de Souza tinha assassinado sua mulher, Clotilde Barros de Souza, com cinco facadas em frente à sua casa, na tarde de 9 de dezembro de 1953. Foi absolvido pelo júri, com base na privação de sentidos em legítima defesa da honra. Enforcou-se numa árvore no jardim dos fundos da sua casa em 3 de março de 1955. O editor tinha encomendado uma matéria sobre crimes passionais no Rio e esperava que eu tivesse testemunhado algo para dar um toque mais humano e atual à matéria que publicaria. O que eu tinha contado não servia para a matéria, mas assim mesmo, meu filho gostou da história. Ele também não lembrava de quando expliquei o que era terreno baldio, mas, fala sério, jogar futebol numa quadra limpinha, regular é melhor do que num terreno baldio.